Em 1994, um guarda-florestal encontrou perto de Sydney uma árvore conhecida apenas por fósseis de 90 milhões de anos, e menos de 100 exemplares selvagens ainda sobrevivem na natureza
A árvore, batizada de Wollemia nobilis, foi rapidamente descrita como “fóssil vivo”, por representar uma linhagem que remonta ao tempo dos dinossauros
Em meados da década de 1990, um guarda florestal do Parque Nacional de Wollemi, no sudeste da Austrália, desceu por cordas em um desfiladeiro estreito e descobriu uma conífera até então conhecida apenas por fósseis.
A árvore, batizada de Wollemia nobilis, foi rapidamente descrita como “fóssil vivo”, por representar uma linhagem que remonta ao tempo dos dinossauros e se tornar um ícone da botânica e da conservação moderna.
O que é o pinheiro-de-wollemi e por que ele é tão singular?
O pinheiro-de-wollemi pertence à família Araucariaceae, a mesma do pinheiro-do-paraná, do pinheiro-de-norfolk e da araucária chilena. Análises genéticas mostram que ele ocupa um ramo próprio do grupo, sendo o último remanescente de uma linhagem com mais de 90 milhões de anos.
Na aparência, forma troncos de até 40 metros, com casca escura e verrucosa. As folhas lembram frondes de samambaia, e a planta produz cones masculinos e femininos, mas se multiplica sobretudo por brotos basais, gerando vários troncos que são, na prática, clones de um mesmo indivíduo ancestral.

Como essa espécie sobreviveu e o que significa ser um fóssil vivo?
Por décadas, o pinheiro-de-wollemi era conhecido apenas por pólen fossilizado e impressões de folhas em rochas do antigo Gondwana. Registros do Cretáceo até poucos milhões de anos atrás pareciam indicar extinção, até a redescoberta no cânion revelar a incompletude do registro fóssil.
O cânion age como refúgio climático, mantendo condições frias e úmidas enquanto o entorno se tornou mais seco e sujeito a incêndios. Situações parecidas ocorreram com o pinheiro-das-matas-nebulosas da China e com o celacanto, mostrando que linhagens antigas podem persistir em locais isolados e ambientalmente estáveis.
Gondwana Canyon Lodge, Namibia. pic.twitter.com/v6hVmJhSBH
— Africa Facts Zone (@AfricaFactsZone) February 18, 2022
Quais são as principais ameaças atuais ao pinheiro-de-wollemi?
Na natureza, existem menos de uma centena de árvores adultas, concentradas em um único sistema de cânions em Nova Gales do Sul. A variabilidade genética é baixíssima, típica de clones, o que aumenta a vulnerabilidade a doenças, mudanças climáticas e eventos extremos como grandes incêndios.
Um dos maiores perigos é o organismo tipo fungo Phytophthora cinnamomi, que causa doença radicular e se espalha com facilidade. Entre os principais vetores de transporte desse patógeno em ambientes naturais estão:
Transporte passivo e de longa distância de crostas de solo fixadas em solados, sulcos de pneus e ferramentas que entram na área.
Carreamento cinético e gravitacional de esporos flagelados (zoósporos) ao longo das vertentes após saturação hídrica do terreno.
Remeximento estrutural da terra em canteiros de obras e áreas de turismo, espalhando focos de contágio antes restritos.
Instalação de estações de lavagem e desinfecção com amônia quaternária para esterilizar veículos e maquinários de campo.
Como a espécie é protegida contra incêndios e doenças?
Durante os incêndios de 2019–2020, chamas intensas se aproximaram a poucos metros do cânion, exigindo uma operação emergencial com helicópteros, linhas de irrigação e lançamentos de água.
Protocolos rigorosos de desinfecção controlam a entrada de pesquisadores, e a localização exata permanece em sigilo para evitar pisoteio e contaminação. O monitoramento inclui coleta de solo, análise de patógenos e acompanhamento da regeneração de brotos, buscando detectar rapidamente qualquer sinal de colapso da população.
Por que o pinheiro-de-wollemi continua relevante?
A história do pinheiro-de-wollemi integra biologia evolutiva, conservação e gestão de áreas protegidas. A espécie mostra como uma linhagem pode atravessar dezenas de milhões de anos apoiada em clonagem natural, refúgios climáticos e, possivelmente, redes de fungos micorrízicos que conectam raízes e trocam nutrientes.
Desde o fim da década de 1990, jardins botânicos mantêm um programa global de propagação, criando uma população de segurança em vários continentes. Enquanto o cânion segue oculto, novas pesquisas genômicas buscam garantir que essa linhagem ultrapasse as atuais crises de clima, fogo e doenças.
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