O trabalho brutal em poços de petróleo abandonados pela modernidade, onde homens respiram gases tóxicos por quase nada
A extração artesanal mantém famílias presas a uma economia tóxica, marcada por risco, baixa renda e herança colonial ainda viva
Em uma região remota de Java Oriental, na Indonésia, centenas de trabalhadores arriscam a vida todos os dias dentro de poços de petróleo construídos ainda no século XIX, durante a colonização holandesa. Sem maquinário moderno, sem proteção legal adequada e recebendo cerca de 12 dólares por semana, esses homens sustentam suas famílias sobre um solo contaminado que já destruiu a agricultura local e continua envenenando quem trabalha nele.
Como funciona a extração de petróleo feita à mão
O método usado nesses poços não mudou muito desde a época colonial. Os trabalhadores operam um equipamento chamado achicador, uma peça com orifícios laterais que abre ao chegar ao fundo do poço e fecha ao ser puxada de volta, retendo o petróleo. Tudo isso é controlado manualmente, com pedais, cordas e barras de ferro pesadas.
O petróleo fica a cerca de 300 metros de profundidade, equivalente à altura do maior edifício da Indonésia. Pony, um dos trabalhadores mais experientes da região, aprendeu o ofício aos 19 anos e hoje ensina o sobrinho. Antes de cada jornada, ele e os colegas rezam juntos.

Quais são os riscos reais de trabalhar nesses poços
Os perigos são constantes e variados. O próprio Pony perdeu parte de um dedo quando a mão ficou presa entre duas peças de ferro. Mas os acidentes individuais são apenas uma parte do problema. Os riscos mais graves que esses trabalhadores enfrentam diariamente incluem:
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O que aconteceu com a produção e com a renda dos trabalhadores
A situação econômica piorou drasticamente nas últimas décadas. Quando Pony começou, em 2004, um único poço produzia até 900 galões por dia. Atualmente, a mesma estrutura pode levar uma semana inteira para render apenas 55 galões. Os poços são rasos demais para alcançar as reservas mais profundas, e os trabalhadores não têm recursos para perfurar mais fundo.
Mesmo vendendo no mercado informal por até o dobro do valor pago pela estatal Pertamina, os ganhos continuam miseráveis. Jono, sobrinho de Pony, recebe 6 dólares extras por semana para transportar o petróleo até a refinaria. Yoko, que transporta petróleo há 16 anos, viu suas viagens diárias cair de 10 para, no máximo, cinco.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Insider Español mostrando a rotina dos trabalhadores de exploração de poços de petróleo tóxico:
Como a herança colonial mantém esses trabalhadores presos à pobreza
Os poços foram instalados pelos holandeses em 1887, durante o período colonial. Quando a Indonésia se tornou independente, em 1945, os holandeses partiram, mas deixaram para trás solo contaminado, água comprometida e uma economia local inteiramente moldada pela extração. A agricultura, que antes sustentava famílias inteiras com plantações de manga, tornou-se inviável em grande parte da região.
Hoje, mesmo sendo donos da terra, os trabalhadores não controlam o petróleo que está no subsolo. Por lei, o recurso pertence à Pertamina, e os moradores precisam vender a produção à empresa estatal. A alternativa informal existe, mas é arriscada. Para piorar, grandes empresas como a ExxonMobil se associaram à Pertamina para explorar jazidas maiores na região, enquanto os trabalhadores artesanais continuam à margem.
Por que esses homens não conseguem abandonar o trabalho que os está matando
Pony resume a contradição com clareza: o petróleo destruiu a terra onde sua família plantava, mas é o único recurso que ainda permite pagar a escola da filha. Ele não tem ilusões sobre o futuro. Afirma não acreditar que o governo vá ajudar e que esses poços já não servem para enriquecer ninguém, só para sobreviver.
Essa é a armadilha mais cruel da situação: a mesma exploração que contaminou o solo, envenenou o ar e acabou com a agricultura é a única saída que resta. Enquanto isso, os corpos pagam a conta. Se você nunca ouviu falar desses trabalhadores, talvez seja porque é muito mais fácil encher o tanque do carro do que olhar para quem está no fundo do poço.
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