Arqueólogos encontram ovo romano de 1.700 anos ainda intacto e descobrem líquido original preservado dentro da casca
A peça preservada em uma fossa alagada pode ter sido oferenda religiosa e desafia os limites da conservação arqueológica
Em 2010, arqueólogos escavando um sítio romano na Inglaterra encontraram quatro ovos com cerca de 1.700 anos de idade. Três deles se romperam no momento da descoberta, liberando um odor sulfuroso intenso. O quarto sobreviveu. Mais de uma década depois, uma análise revelou algo que ninguém esperava: ele ainda tinha líquido dentro da casca. Um ovo romano, intacto, com conteúdo original, enterrado desde o século IV.
Onde e como o ovo foi encontrado
O ovo foi localizado em Berryfields, perto de Aylesbury, em Buckinghamshire, no Reino Unido, durante escavações realizadas entre 2007 e 2016 antes da construção de um conjunto habitacional. Ele estava no interior de uma grande fossa romana alagada, um ambiente úmido que ajudou a preservar materiais orgânicos que normalmente se decomporiam ao longo dos séculos.
Junto com os ovos, os arqueólogos encontraram uma cesta trançada, vasos de cerâmica, moedas, sapatos de couro e ossos de animais. O conjunto de objetos chamou atenção desde o início, mas o ovo sobrevivente só revelaria sua verdadeira importância anos depois.

O que a tomografia revelou dentro da casca
Durante o trabalho de conservação conduzido por Dana Goodburn-Brown, da DGB Conservation, o ovo passou por uma microtomografia computadorizada (micro-CT), técnica atribuída ao Dr. Christopher Dunmore, do Centro de Imagem para Ciências da Vida da Universidade de Kent. O método permitiu examinar o interior sem abrir ou danificar a casca.
O resultado surpreendeu os especialistas. Segundo o Conselho de Buckinghamshire, o ovo “ainda está cheio de líquido e com uma bolha de ar”. O jornal The Guardian noticiou que o conteúdo provavelmente é uma mistura de gema e clara que se fundiu ao longo do tempo. Edward Biddulph, gerente sênior de projetos da Oxford Archaeology, afirmou ao The Guardian que “frequentemente encontramos pedaços de cascas, mas não ovos intactos”, destacando o caráter único da descoberta.
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Por que esse ovo é diferente de qualquer outro já encontrado
Douglas Russell, curador sênior da coleção de ovos e ninhos de aves do Museu de História Natural de Londres, esclareceu que existem ovos mais antigos com material em seu interior, incluindo exemplares mumificados. O que torna o ovo de Aylesbury singular é outra coisa: ele é considerado pelo Conselho de Buckinghamshire o “único exemplar conhecido de seu tipo no mundo”, por ser o ovo preservado acidentalmente mais antigo de sua categoria. Entre as características que o tornam tão raro estão:

O ovo pode ter sido uma oferenda religiosa romana
A localização do ovo dentro da fossa levantou uma hipótese intrigante. Biddulph afirmou ao The Guardian que o ovo pode ter sido colocado ali como uma oferenda votiva, uma prática comum na Roma antiga em que objetos eram depositados em poços ou fontes como forma de súplica ou agradecimento a divindades. O poço em questão estava associado à maltagem e à fabricação de cerveja, em uma área úmida próxima a uma estrada romana.
A presença de moedas, sapatos, ossos de animais e possivelmente pão dentro da cesta reforça a ideia de que o depósito foi intencional. Os arqueólogos interpretam o conjunto não como descarte aleatório, mas como um ato deliberado com significado simbólico ou religioso.
O desafio de conservar algo que não deveria ter sobrevivido
Agora o ovo enfrenta um dilema científico delicado. O líquido em seu interior pode conter informações valiosas sobre a ave que o pôs, mas qualquer intervenção representa um risco real para a casca. Uma das possibilidades estudadas é fazer um pequeno furo na casca para extrair o conteúdo com segurança, embora essa etapa ainda não tenha sido confirmada. O Conselho de Buckinghamshire informou que estão em andamento planos para avaliar o potencial de pesquisa do ovo e garantir seu armazenamento a longo prazo.
Um ovo colocado em uma fossa há 1.700 anos, provavelmente como oferenda a alguma divindade romana, acabou se tornando uma das descobertas arqueológicas mais extraordinárias da Inglaterra moderna. O que estava destinado ao esquecimento sob a terra sobreviveu a impérios, séculos e escavadeiras. Agora cabe à ciência decidir o quanto pode aprender com ele sem destruir o que o tempo, contra todas as probabilidades, resolveu preservar.
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