Pegadas de 6 milhões de anos encontradas em Creta podem mudar o que sabemos sobre o início da caminhada humana

25.06.2026

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Pegadas de 6 milhões de anos encontradas em Creta podem mudar o que sabemos sobre o início da caminhada humana

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Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 15.06.2026 05:53 comentários
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Pegadas de 6 milhões de anos encontradas em Creta podem mudar o que sabemos sobre o início da caminhada humana

As marcas fossilizadas preservam detalhes de um pé semelhante ao humano e ampliam o debate sobre onde começou a marcha bípede

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Pegadas de 6 milhões de anos encontradas em Creta podem mudar o que sabemos sobre o início da caminhada humana
Pegadas antigas em Creta reescrevem o início da evolução humana.

Uma descoberta científica está reescrevendo o que sabemos sobre os primórdios da caminhada humana. Pegadas fossilizadas encontradas na ilha grega de Creta foram datadas de cerca de 6,05 milhões de anos atrás, tornando-se a evidência direta mais antiga já identificada de um pé semelhante ao humano usado para andar ereto. O passado que conhecíamos acaba de ficar ainda mais distante.

As pegadas que ninguém esperava encontrar na Grécia

As marcas foram localizadas perto da vila de Trachilos, no oeste de Creta, e descritas pela primeira vez em 2017. Só depois uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Tübingen aplicou técnicas geofísicas e micropaleontológicas para determinar a idade precisa do sítio.

O estudo foi publicado na revista Scientific Reports e confirmou que as pegadas são a evidência direta mais antiga de locomoção bípede descoberta até hoje, superando em muito o que os cientistas esperavam encontrar no Mediterrâneo.

Marcas fósseis em Trachilos revelam passos de seis milhões de anos – Crédito: Gerard Gierlinski

Por que essa descoberta é maior do que parece

Para entender o peso da descoberta, basta uma comparação. O autor principal do estudo, Uwe Kirscher, destacou que as pegadas de Trachilos são quase 2,5 milhões de anos mais antigas do que as famosas pegadas de Laetoli, na Tanzânia, atribuídas ao Australopithecus afarensis, a espécie da qual Lucy faz parte.

A idade das pegadas coincide ainda com a do Orrorin tugenensis, uma espécie pré-humana que viveu no Quênia entre 6,1 e 5,8 milhões de anos atrás. Apesar de fósseis do Orrorin sugerirem postura ereta, nenhum osso do pé ou pegada da espécie foi encontrado até hoje, o que torna Trachilos ainda mais relevante.

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O que as marcas revelam sobre como nossos ancestrais andavam

As pegadas preservam detalhes anatômicos surpreendentes. Per Ahlberg, professor da Universidade de Uppsala e coautor do estudo, descreveu as características do pé com precisão: “O pé humano mais antigo usado para andar ereto tinha uma planta, com um dedão forte e paralelo, e dedos laterais sucessivamente mais curtos.”

Os pesquisadores também identificaram diferenças em relação a hominídeos posteriores. Entre os pontos observados nas mais de 50 pegadas analisadas, destacam-se:

  • Presença de planta do pé, característica associada à marcha bípede
  • Dedão forte e alinhado com os demais dedos
  • Dedos laterais progressivamente mais curtos
  • Sola mais curta do que a do Australopithecus
  • Arco plantar pouco desenvolvido e calcanhar mais estreito
Anatomia fóssil mostra dedão forte e alinhado para marcha bípede – Crédito: Per Ahlberg

O ambiente de 6 milhões de anos atrás e a ligação com a África

O estudo também examinou o contexto ambiental da época. Há seis milhões de anos, Creta estava ligada à Grécia continental pelo Peloponeso, o que permitia a movimentação de animais terrestres pela região. A pesquisadora Madelaine Böhme, coautora do trabalho, afirmou que não é possível descartar uma ligação entre o criador das pegadas e o possível pré-humano Graecopithecus freybergi.

Evidências geoquímicas coletadas pela equipe indicam que poeira do norte da África chegou a Creta durante esse período. Os pesquisadores dataram grãos minerais encontrados nos sedimentos e obtiveram idades entre 500 e 900 milhões de anos, valores típicos da poeira do deserto transportada pelo vento. O estudo também reforça a hipótese da “oscilação do deserto”, segundo a qual fases de expansão do Saara influenciaram a movimentação de mamíferos entre a Eurásia e a África.

Uma janela aberta para o início de tudo

Diferentemente de ossos, que podem estar fragmentados ou dispersos, pegadas registram diretamente o movimento. Essas marcas preservadas em sedimentos de praia fossilizados oferecem uma perspectiva única sobre como um ser se movia há mais de seis milhões de anos, em um mundo completamente diferente do nosso. Cada detalhe gravado na rocha é um dado que nenhum esqueleto poderia oferecer sozinho.

Se você achava que a história da humanidade já estava bem mapeada, Trachilos acaba de provar o contrário. A cada nova descoberta, o passado se revela mais complexo, mais antigo e mais fascinante do que imaginávamos. Fique de olho: o próximo capítulo da nossa origem pode estar escondido em qualquer praia do mundo.

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