Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos

25.06.2026

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Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos

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8 minutos de leitura 13.06.2026 13:40 comentários
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Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos

2.000 bovinos gerados por 5 em 130 anos sem ajuda

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Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos
Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos

Em 1871, um agricultor francês chamado Heurtin abandonou cinco bovinos na Ilha de Amsterdã, território isolado no sul do Oceano Índico, como reserva de alimento para futuras expedições. O que ele não esperava é que esses animais, sem curral, sem pastagem cultivada e sem veterinário, virariam um dos casos mais raros de adaptação animal já documentados pela ciência.

O que é a Ilha de Amsterdã e por que ela é um ambiente tão hostil?

A Ilha de Amsterdã é um território francês vulcânico de apenas 55 km², localizado a cerca de 4.440 km a sudeste de Madagascar, no coração do Oceano Índico meridional. O clima combina frio intenso, ventos que podem atingir força de furacão, chuvas frequentes e escassez crônica de fontes de água estáveis.

Nas palavras do estudo publicado em 2024 na revista Molecular Biology and Evolution, a ilha é “frequentemente fustigada por ventos fortes, às vezes com força de furacão”. Para bovinos domésticos criados para dependência humana, esse ambiente deveria ter sido uma sentença de morte. Não foi.

Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos
Quatro ângulos do isolamento: rebanho no planalto, touro na rocha, close de bovino adaptado ao frio e pegadas no solo vulcânico

Como cinco bovinos conseguiram virar um rebanho de quase 2.000 animais?

O grupo inicial se reproduziu por gerações sem nenhuma intervenção humana, sem suplementação alimentar, sem manejo de reprodução e sem assistência veterinária. O rebanho atingiu picos de quase 2.000 cabeças documentados em 1952 e no final dos anos 1980, tornando-se um dos únicos rebanhos ferais de Bos taurus no mundo inteiro, conforme registrado pelo Conservation Evidence.

Os principais fatores que explicam essa expansão improvável são:

1
Genética pré-adaptada A mistura de taurino europeu (tipo Jersey) e zebuíno do Oceano Índico já trazia resistência ao frio, chuva e escassez de recursos antes mesmo de chegar à ilha.
2
Feralização rápida Em poucas gerações, os animais abandonaram o comportamento doméstico e adotaram hierarquias sociais complexas típicas de bovídeos selvagens.
3
Ausência de predadores A ilha não tinha mamíferos predadores terrestres, o que eliminou a principal causa de mortalidade que limita rebanhos em ambientes selvagens.
4
Gargalo genético superado Apesar de um coeficiente de endocruzamento de 0,30, um dos mais altos já registrados em mamíferos, os animais não apresentaram problemas visíveis de saúde ou fertilidade.
5
Vegetação nativa como alimento Sem pastagem cultivada, os bovinos passaram a se alimentar da vegetação endêmica da ilha, o que paradoxalmente acelerou o impacto ambiental do rebanho.

O que o estudo genético de 2024 revelou sobre a sobrevivência do rebanho?

Pesquisadores do INRAE (Instituto Nacional de Pesquisa para Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França) e da Universidade de Liège, na Bélgica, liderados pelo geneticista Mathieu Gautier, sequenciaram o DNA de 18 amostras coletadas em 1992 e 2006. O resultado mostrou que o rebanho era composto por cerca de 75% de gado taurino europeu, relacionado à raça Jersey, e 25% de zebuíno do Oceano Índico, ligado a animais de Madagascar e Maiote.

Essa mistura genética não foi acidente. A raça Jersey, originária da ilha de Jersey no Canal da Mancha, já é adaptada a climas frios, úmidos e ventosos. O zebuíno, por sua vez, confere resistência a parasitas e calor. Juntos, os dois perfis genéticos criaram animais que eram, nas palavras da pesquisadora Laurence Flori do INRAE, “pré-adaptados” antes de tocar o solo da ilha.

Fazendeiro abandonou 5 vacas em ilha e elas se multiplicaram para 2.000 em 130 anos
Bovinos selvagens de pelagem escura pastando em terreno vulcânico da Ilha de Amsterdã, costa rochosa e oceano vasto ao fundo

A feralização em poucas gerações

Além da genética, o estudo identificou mudanças rápidas em genes ligados ao sistema nervoso e ao comportamento. Em poucas gerações, os bovinos de Amsterdã ficaram mais alertas, mais agressivos com estranhos e passaram a organizar grupos sociais separados por sexo e idade, padrão comum em bovídeos ferais e selvagens, mas incomum em animais domésticos.

Como o rebanho impactou o ecossistema da ilha e qual foi o desfecho?

Ao se multiplicar, o rebanho passou a consumir e pisotear a vegetação nativa da Ilha de Amsterdã, causando erosão do solo, redução das fontes de água e ameaça direta a duas espécies raras: o albatroz-de-Amsterdã (Diomedea amsterdamensis) e a árvore endêmica Phylica arborea. A tabela abaixo resume a cronologia do caso, do abandono à erradicação:

Ano Evento Situação
1871 Introdução dos bovinos Heurtin abandona cinco bovinos na ilha como reserva de alimento para expedições Início
1952 e 1988 Picos populacionais Rebanho atinge cerca de 2.000 cabeças sem qualquer manejo humano Expansão máxima
1987–1988 Início do controle Cerca elétrica de 4 km divide a ilha; abate parcial reduz o rebanho ao norte Controle iniciado
2010 Erradicação total Autoridades das Terras Austrais e Antárticas Francesas concluem a erradicação do rebanho Encerrado

Leia também: A Europa sem passaporte na Serra Gaúcha: a cidade do festival de Natal mais longo do mundo segundo o Guinness

O que esse caso revela sobre os limites entre adaptação animal e conservação ambiental?

A história do gado feral da Ilha de Amsterdã é um experimento evolutivo que a ciência dificilmente conseguiria reproduzir em laboratório. Em 130 anos, cinco animais domésticos reverteram comportamentos de milênios de criação, reorganizaram sua estrutura social e sustentaram uma população geneticamente funcional com um dos maiores índices de endocruzamento já registrados em mamíferos, segundo o estudo publicado na Molecular Biology and Evolution.

A França optou pela erradicação em 2010 para proteger o patrimônio natural reconhecido pela UNESCO em 2019, decisão que gerou controvérsia entre cientistas que defendiam o valor do rebanho como objeto de pesquisa vivo. O DNA de 18 indivíduos, coletado antes do fim, é tudo que resta. Mas é suficiente para mostrar que a adaptação, quando a genética está certa, pode superar qualquer expectativa.

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