O fim da seca usando oceano como fonte de água potável: como um país instalou dutos submarinos de 340 metros no Atlântico e o que isso significa para o Brasil e o mundo
A solução que pode acabar com a seca usando água do mar
A usina de dessalinização de Mamelles, em Dakar, no Senegal, transformou o Oceano Atlântico em fonte de abastecimento urbano ao instalar dutos submersos de 340 metros para captar água do mar e convertê-la em água potável. Com capacidade inicial de 50 milhões de litros por dia e expansão planejada para o dobro, o projeto mostra que o mar passou de cenário a solução.
Como funciona a usina de Mamelles e por que ela é diferente das convencionais?
Em vez de captar água próxima à orla, a usina de Mamelles usa dois emissários subaquáticos instalados pelo método de microtunelamento, técnica que perfura o leito marinho sem abrir valas na superfície. Esse sistema leva a água do Atlântico até a estação em terra firme com menor impacto sobre praias e áreas urbanas costeiras.
Após a captação, a água passa por etapas de pré-tratamento e depois pelo processo de osmose reversa, que força o líquido contra membranas semipermeáveis capazes de reter sais e impurezas. O resultado é água potável dentro dos padrões de consumo humano, produzida a partir de uma fonte que não depende de chuva, rio ou reservatório.

Quais são as etapas do processo de dessalinização por osmose reversa?
O ciclo completo envolve captação, filtragem, pressurização e devolução controlada dos resíduos. Cada etapa exige equipamentos específicos e controle rigoroso para garantir que a água final atinja os padrões de potabilidade exigidos pelas autoridades sanitárias.
As principais fases do processo são:
Qual é a escala real da dessalinização no mundo hoje?
Para entender o que a usina de Dakar representa, é útil comparar com as maiores referências globais. A usina de Sorek I, em Israel, produz cerca de 624 milhões de litros de água potável por dia, volume suficiente para abastecer uma cidade de 2 milhões de habitantes. Ela capta água do Mar Mediterrâneo por tubulações submersas e usa membranas de osmose reversa de 16 polegadas de diâmetro, o dobro do padrão convencional.
Quem quer ter uma visão concreta de como a água salgada do mar se torna potável e quais são as maiores usinas do mundo vai curtir esse vídeo do canal Canal do Ensino, com mais de 16 milhões de visualizações combinadas, onde cada etapa da dessalinização é mostrada em detalhes:
O papel dos túneis submarinos na captação de água do oceano
Os dutos submersos de Mamelles têm 340 metros de extensão e foram instalados por microtunelamento, técnica que perfura o substrato marinho com equipamentos guiados, sem interferir na superfície costeira. Esse método já é usado em projetos de saneamento e cabos submarinos em todo o mundo, e sua aplicação em dessalinização representa um avanço na redução de impactos ambientais e visuais na orla.
Como o Brasil se compara ao modelo do Senegal nessa tecnologia?
O Brasil avança em duas frentes distintas. No Programa Água Doce, coordenado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, mais de mil sistemas de dessalinização foram instalados no semiárido para tratar água salobra de poços e abastecer comunidades rurais até 2025. É uma escala menor, mas atinge exatamente quem mais precisa.
Na escala urbana, o Ceará lidera com o projeto Dessal Ceará, previsto para a Praia do Futuro, em Fortaleza. A usina terá capacidade de produzir 1 metro cúbico de água por segundo, com custo estimado em torno de R$ 3 bilhões ao longo de 30 anos de operação. O objetivo é reduzir a dependência dos reservatórios do Nordeste, historicamente vulneráveis às estiagens.

Quais são os limites e os cuidados ambientais que toda usina de dessalinização exige?
A dessalinização consome mais energia do que o tratamento convencional de água doce, o que eleva o custo operacional e a pegada de carbono quando a fonte energética não é renovável. O descarte da salmoura, resíduo concentrado em sais, também exige licenciamento ambiental rigoroso para não alterar a salinidade local e afetar organismos marinhos na região de lançamento.
A tabela abaixo compara os principais projetos de dessalinização mencionados, com dados de capacidade e contexto:
| Projeto | Capacidade (litros/dia) | Status |
|---|---|---|
| Sorek I — Israel Mar Mediterrâneo, osmose reversa | 624 milhões | Em operação |
| Mamelles — Senegal Atlântico, túneis submarinos de 340 m | 50–100 milhões (meta) | Em implantação |
| Dessal Ceará — Brasil Praia do Futuro, Fortaleza | 86,4 milhões (1 m³/s) | Em licenciamento |
| Programa Água Doce — Brasil Semiárido, mais de 1.000 sistemas | Distribuído (pequeno porte) | Em operação |
O que a experiência do Senegal muda na forma de pensar o abastecimento hídrico?
O projeto de Dakar não é só uma obra de engenharia. É uma mudança de paradigma: o mar deixa de ser um limite geográfico e passa a ser uma fonte ativa de abastecimento em regiões onde chuvas e reservatórios já não são suficientes. Países da África, do Oriente Médio e do Mediterrâneo seguem esse caminho há décadas, e o Brasil começa a replicar a lógica em seu litoral nordestino.
O desafio real não é tecnológico. A osmose reversa já é madura, testada e confiável. O que define o ritmo de expansão é a combinação de custo energético, licenciamento ambiental rigoroso e planejamento de longo prazo que garanta que o oceano seja usado sem sobrecarregar os ecossistemas costeiros que fazem o planeta funcionar.
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