Ilha no Caribe colombiano guarda ruínas de clube da elite, disputa judicial milionária e um capítulo ligado ao narcotráfico
A ilha pública recuperada pela Justiça ainda reúne ruínas de luxo, abandono, disputa patrimonial e marcas de ocupação ilegal no Caribe
A poucos minutos de barco de uma das praias mais movimentadas da Colômbia, uma ilha rochosa no Mar do Caribe guarda as ruínas de um clube náutico que foi palco das festas da elite de Santa Marta, uma disputa judicial de décadas e um capítulo que ninguém esperava: o narcotráfico. A Isla Pelícano, também chamada de Morro de Gaira, é um patrimônio natural recuperado no papel, mas abandonado na prática, e quase ninguém sabe que ela existe.
A ilha pública que um empresário transformou em clube privado
Em 5 de setembro de 1966, o empresário Gustavo Díaz Segovia, figura influente nos setores hoteleiro e gastronômico de Santa Marta, assinou um contrato com o INCORA, o Instituto Colombiano de Reforma Agrária, para arrendar o Morro de Gaira. O acordo previa o pagamento de 1.800 pesos anuais durante dez anos, ao fim dos quais ele devolveria o domínio da terra ao Estado. Isso nunca aconteceu.
No lugar, Díaz Segovia construiu um clube náutico exclusivo com recepção, quartos voltados para o mar, salões de festa, cozinha, banheiros e uma piscina que captava a água do próprio Caribe. O local se tornou epicentro de reuniões da elite de Santa Marta e de personalidades de todo o país, em um período de opulência que marcou a cidade. O acesso era restrito e caro, reservado a quem podia pagar pelo privilégio.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Kevin Bolaños visitando o clube nautático mais remoto do mundo.
Como o empresário transformou um arrendamento em propriedade privada
Quando o contrato original se aproximou do fim, Díaz Segovia conseguiu prorrogá-lo até 1986. Em seguida, deu um passo além: argumentou que, após mais de 20 anos de uso e ocupação do local, tinha direito à propriedade definitiva da ilha. As leis da época permitiam que pessoas reivindicassem terrenos baldios que já utilizavam há muito tempo, e o INCORA aceitou o argumento, entregando oficialmente o Morro de Gaira ao empresário em 1979.
A Procuraduría General de la Nación identificou irregularidades no processo e contestou a legalidade da transferência, alegando que ilhas como a Pelícano pertencem à nação e não podem ser vendidas ou cedidas a particulares. O caso percorreu instâncias judiciais por anos, foi rejeitado inicialmente pelo Tribunal Administrativo del Magdalena e chegou ao Consejo de Estado, que decidiu a favor da Procuraduría. Em 2016, o Consejo de Estado reafirmou que a ilha era de uso público e que nunca deveria ter sido adjudicada a um particular.
O capítulo que veio depois da recuperação judicial
Com a ilha de volta ao controle do Estado, esperava-se alguma forma de preservação ou recuperação ambiental. O que veio foi o silêncio. As estruturas do clube náutico foram deteriorando progressivamente, tomadas pelo salitre, pela vegetação e pelo vandalismo. E então surgiu um capítulo inesperado:

Como está a ilha hoje e o que resta do clube náutico
Quem desembarca na Isla Pelícano hoje encontra escadas que rangem, paredes rachadas cobertas de grafite, piscinas vazias, quartos sem teto e corredores com piso destruído. Não há guardas, não há projetos de restauração, não há placas comemorativas. Apenas os vestígios da ocupação privada e os pelicanos que voltaram a pousar sobre as vigas quebradas. A natureza retoma o que foi alterado, mas sem nenhuma ajuda institucional.
A história da Isla Pelícano é, em miniatura, a história de como o poder econômico pode arrancar pedaços do que deveria ser de todos, e de como recuperar um patrimônio no papel não é suficiente para salvá-lo. Enquanto turistas embarcam em El Rodadero rumo a Playa Blanca sem saber que aquela ilha rochosa ali do lado tem décadas de lutas para contar, o Morro de Gaira segue esperando por alguém que decida, de fato, o que fazer com ele.
O que a Isla Pelícano revela sobre patrimônio público na Colômbia
O caso do Morro de Gaira não é isolado. Ele ilustra um padrão recorrente em que bens naturais de acesso coletivo são ocupados por interesses privados com respaldo institucional, depois disputados judicialmente por décadas e, quando finalmente recuperados, deixados à própria sorte. A ilha foi devolvida à nação colombiana, mas a nação ainda não decidiu o que fazer com ela.
Se você já passou por El Rodadero e viu aquele pequeno morro rochoso no mar sem dar atenção, agora sabe o que está ali. Uma piscina com vista para o Caribe, ruínas de um clube que a elite frequentava, uma batalha judicial de 22 anos e pelicanos que sobreviveram a tudo isso. A ilha espera. A pergunta é quanto tempo ainda vai esperar.
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