Túneis feitos para escoar água viraram casa para mais de 100 famílias no coração de uma das maiores metrópoles do mundo
A comunidade subterrânea expõe uma crise habitacional extrema, onde famílias ocupam estruturas de drenagem para sobreviver na cidade
Milhares de carros e caminhões passam todos os dias pela Osmeña Highway, uma das rodovias mais movimentadas de Manila, sem que nenhum motorista imagine o que existe logo abaixo do asfalto. A poucos centímetros dos pneus, centenas de pessoas dormem, cozinham, criam filhos e tentam sobreviver dentro de túneis originalmente construídos para escoamento de água. É uma cidade invisível no coração de uma das metrópoles mais populosas do mundo.
Como uma comunidade inteira foi parar debaixo de uma rodovia
Os túneis sob a Osmeña Highway, no bairro de San Andres Bukid, nunca foram projetados para abrigar pessoas. Eram estruturas de controle de enchentes, mas foram ocupadas gradualmente por famílias que não encontraram outra alternativa diante do alto custo da moradia em Manila. A população da cidade já ultrapassa 13 milhões de habitantes, e para quem vive na pobreza, qualquer espaço disponível pode se tornar moradia.
Cerca de 100 famílias vivem na comunidade subterrânea, e o número pode ser ainda maior, já que uma comunidade idêntica existe do outro lado do rio. Algumas famílias estão ali há décadas. Jaya Vergara, moradora do túnel há três décadas, resume a situação com clareza: “O motivo pelo qual ficamos aqui é que não temos escolha. Esta é uma casa gratuita. A água é gratuita.”
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Drew Binsky mostrando como mais de 100 famílias vivem em túneis em baixo da terra.
Como é a vida dentro dos túneis de Manila
O espaço é escuro, quente, úmido e extremamente apertado. Em vários trechos, o teto tem menos de um metro de altura, obrigando moradores e visitantes a se arrastar para entrar e sair. Famílias inteiras vivem em quartos mínimos, às vezes com até oito pessoas dividindo um único espaço, cercadas por roupas, colchões e pertences empilhados. Apesar disso, muitas casas têm eletricidade, televisão, ventilador, celular e até Wi-Fi.
O calor é um dos maiores tormentos cotidianos. A falta de ventilação prende o calor sob a rodovia, tornando as temperaturas especialmente insuportáveis durante o verão e os períodos de El Niño. Quando a energia elétrica falta, os ventiladores param, o túnel fica completamente escuro e os moradores sobem para a rua para esperar o retorno da luz.
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Os riscos que os moradores enfrentam todos os dias
Viver nos túneis significa conviver permanentemente com ameaças que qualquer pessoa consideraria inaceitáveis. Os perigos se acumulam e se intensificam nas épocas de chuva:

Quem são as famílias que vivem sob o asfalto
A comunidade é formada por famílias com crianças pequenas, bebês, adolescentes grávidas, idosos e avós que ajudam a criar netos. Uma moradora de 79 anos vive no túnel desde 1997, após sua família não ter encontrado outro lugar para ficar. Ela aprendeu a sobreviver ali e conta com os vizinhos quando o alimento falta. Os homens, em geral, saem para trabalhos informais como lavar carros no semáforo. As mulheres ficam responsáveis pela rotina doméstica e pelo cuidado dos filhos.
Algumas famílias chegaram a ser reassentadas em Cabuyao, na província de Laguna, mas retornaram a Manila por falta de oportunidades de trabalho na nova cidade. O episódio revela que tirar as famílias do túnel sem oferecer condições reais de sustento não resolve o problema, apenas o desloca.
O que a comunidade do túnel revela sobre Manila e o mundo
Segundo a organização Depaul International, aproximadamente 4,5 milhões de pessoas enfrentam situação de rua nas Filipinas, com cerca de dois terços vivendo na região metropolitana de Manila. A comunidade sob a Osmeña Highway não é uma anomalia: é o reflexo de uma crise habitacional estrutural que empurra os mais pobres para espaços que nunca deveriam ser habitados. O governo filipino e o Departamento de Bem-Estar Social reconhecem o problema, mas as soluções concretas ainda estão longe de chegar.
Enquanto isso, as famílias seguem organizando seus pertences, protegendo os filhos da chuva e negociando a sobrevivência dia após dia em um espaço que o mundo prefere não ver. Conhecer a história dessa comunidade é o primeiro passo para entender que a pobreza urbana não é invisível por acaso. Ela é ignorada. E isso é uma escolha.
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