O país africano onde não há caixas eletrônicos, redes sociais são bloqueadas e até sair da capital exige autorização do governo
O país expõe um contraste raro entre isolamento político, ausência de modernidade digital e uma vida social profundamente presencial
Imagine um país onde não existem caixas eletrônicos, as redes sociais são bloqueadas e sair da capital exige uma autorização especial do governo. Bem-vindo à Eritreia, uma nação no chifre da África que desafia qualquer expectativa e revela um modo de vida radicalmente diferente de tudo que o mundo moderno conhece.
Por que a Eritreia é chamada de “Coreia do Norte da África”
A comparação não é exagerada. A Eritreia é governada desde sua independência, em 1991, pelo presidente Isaias Afwerki, à frente de um Estado de partido único com controle rígido sobre a população. Não há imprensa livre, as redes sociais são restritas e o serviço militar pode durar por tempo indeterminado. Turistas enfrentam exigências severas de visto e precisam de autorizações separadas para circular em qualquer área fora da capital, Asmara.
A burocracia começa já na chegada. No aeroporto, o processo de visto pode consumir mais de duas horas, incluindo contratempos como impressoras quebradas e autorizações provisórias emitidas para o dia seguinte. O isolamento não é apenas político, é logístico e cotidiano.

Uma capital congelada no tempo com sotaque italiano
Asmara guarda marcas profundas da colonização italiana, visíveis na arquitetura modernista, nos cafés e até em uma antiga pista de boliche que opera sem nenhum sistema eletrônico. A pontuação é anotada à mão, as bolas têm apenas um furo e crianças recolocam os pinos manualmente após cada jogada, como se o lugar fosse uma cápsula dos anos 1950.
O café é um dos maiores legados dessa herança. O macchiato de Asmara é considerado por viajantes como um dos melhores do mundo, resultado da fusão entre a tradição italiana e a proximidade com a Etiópia, berço histórico da bebida. Nas ruas, a vida social acontece em espaços físicos, sem mediação digital, com conversas, jogos e convivência como centro do cotidiano.
Como é viver sem internet, cartão de crédito ou aplicativo de pagamento
A Eritreia funciona quase inteiramente em dinheiro vivo. Para acessar a internet, é preciso ir a um cyber café, comprar um cartão com senha e lidar com uma conexão tão lenta que enviar um e-mail pode levar vários minutos. Confira o que simplesmente não existe no país:
| Recurso / Serviço | Status / Contexto |
|---|---|
| Caixas eletrônicos | Disponíveis ao público em geral. |
| Cartões de crédito ou débito | Aceitos normalmente no comércio. |
| Aplicativos de pagamento | Sistemas de transferências e pagamentos bancários comuns no dia a dia. |
| Redes sociais | Plataformas de livre acesso para a população. |
| Hipotecas e empréstimos | Disponibilizados nos moldes e padrões ocidentais. |
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Drew Binsky visitando o país mais estranho do mundo.
O interior que nenhum turista costuma ver
Fora de Asmara, a Eritreia revela sua face mais humana. Em aldeias rurais no caminho para Keren, a segunda maior cidade do país, moradores vivem sem água corrente e sem internet, em casas simples com energia solar, numa rotina centrada na família, na religião e no trabalho manual. Em uma dessas aldeias, a aldeia de Halibent, um menino de 11 anos chamado Abdul Majid surpreende ao afirmar falar sete idiomas, incluindo inglês, italiano e árabe, aprendidos por aplicativos offline instalados em seu celular, sem nunca ter acessado a internet.
Em Keren, o viajante acessa um imenso mercado rural de camelos, burros e gado, normalmente fechado a turistas. Homens reunidos no alto do mercado tomam chá, comem amendoim e observam os animais, enquanto cada um prepara sua própria receita de chá, um detalhe que resume bem a riqueza cultural preservada nessas comunidades.
A Eritreia que fica depois da viagem
O que surpreende qualquer viajante que consegue entrar na Eritreia não é o isolamento, é a hospitalidade. Moradores convidam estranhos para tomar café, entrar em suas casas, provar comida caseira e participar de casamentos. Um eritreu que vive nos Estados Unidos descreve as visitas ao país como uma forma de desintoxicação das redes sociais. Outro morador resume: “A Eritreia talvez não seja uma sociedade extravagante, mas a paz é a coisa mais importante.”
A Eritreia é um lugar de contradições reais: politicamente fechado, mas socialmente aberto; sem modernidade digital, mas rico em humanidade. Para quem busca entender o mundo além das telas, poucos destinos oferecem um contraste tão honesto e tão impactante quanto esse país que o mapa quase esqueceu.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)