O que Xi Jinping foi fazer na Coreia do Norte?
Encontro reforça aliança histórica enquanto Pequim tenta recuperar espaço diante da crescente aproximação de Pyongyang com Moscou
O líder chinês Xi Jinping iniciou nesta segunda-feira, 8, uma visita de dois dias à Coreia do Norte — a primeira ao país desde 2019. O encontro com o ditador norte-coreano Kim Jong-un é uma tentativa de mudar a reconfiguração das alianças regionais, com Pyongyang cada vez mais próxima da Moscou, e Pequim empenhada em reconsolidar sua posição como principal parceira estratégica do regime.
Aliança sob pressão
Kim Jong-un tem se esforçado para chamar a atenção de Vladimir Putin e estreitar os laços com a Rússia, que depende do fornecimento de armamentos e da mobilização de soldados norte-coreanos para sustentar sua guerra contra a Ucrânia.
“A China claramente se sente ignorada pela Coreia do Norte”, afirmou à Deutsche Welle Choo Jae-woo, professor de política externa do Instituto de Estudos Chineses da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul.
O momento da viagem reforça essa leitura. Julho marca o 65º aniversário do tratado de amizade sino-norte-coreano — o único acordo de aliança militar em vigor na China. Ainda assim, Xi antecipou a visita em um mês.
Para Choo, a antecipação “mostra que Xi está preocupado com a possibilidade de a Coreia do Norte estar se aproximando demais da Rússia”.
A última vez que os dois presidentes se reuniram foi em setembro de 2025, em Pequim, durante as comemorações do 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Ásia. Putin também participou do evento.
O que cada lado busca
Para Kim, a visita serve a objetivos tanto domésticos quanto diplomáticos. Internamente, a presença de uma das maiores potências do mundo ao seu lado funciona como demonstração de força e respaldo ao regime.
No plano externo, o líder norte-coreano quer ampliar o reconhecimento internacional do país. “Ele quer que a Coreia do Norte seja vista internacionalmente como um ‘Estado normal’”, disse Choo.
Entre as metas, estaria a adesão de Pyongyang à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ou ao Brics — grupos dos quais a Coreia do Norte não faz parte nem como observadora.
A economia do país, historicamente debilitada, também está na pauta. Dados do banco central sul-coreano indicam que o PIB norte-coreano cresceu 3% nos últimos dois anos, revertendo anos de desempenho negativo ou nulo.
Kim busca atrair mais turistas chineses para a região litorânea de Wonsan-Kalma e ampliar o volume de exportações vindas da China.
Do lado de Pequim, os objetivos têm escala regional. Ainda segundo a DW, Kim Sang-woo, ex-parlamentar sul-coreano e membro do Conselho da Fundação para a Paz Kim Dae-jung, avalia que Xi quer demonstrar “que a China é a potência hegemônica na região do Indo-Pacífico e que o compromisso e a confiabilidade dos EUA na região se tornaram cada vez mais incertos”.
A mensagem seria direcionada a países como Coreia do Sul, Japão, Índia, Filipinas e Austrália, todos em processo de aproximação com Washington.
A visita ocorre, portanto, em um tabuleiro geopolítico em movimento — e tanto Pequim quanto Pyongyang têm razões próprias para jogar.
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