Eles construíram prédios de madeira e queimaram tudo num teste: as estruturas aguentaram 2 horas
Pesquisadores canadenses incendiaram conexões reais de edifícios de madeira maciça e descobriram algo surpreendente: a madeira não só aguentou o fogo como ajudou a blindar as partes de aço da estrutura.
Quando se pensa em um prédio alto e seguro, a imagem que vem à cabeça costuma ser de concreto e aço. Madeira? A maioria das pessoas associa a algo que pega fogo fácil. Mas um estudo publicado em 2026 ajuda a desmontar esse medo — e mostra por que arranha-céus de madeira estão virando uma das maiores apostas da construção mundial.
A pesquisa, conduzida por engenheiros do instituto canadense FPInnovations em parceria com a consultoria GHL, testou na prática como se comportam, no fogo, as conexões de prédios feitos de madeira maciça — mais especificamente a chamada madeira laminada cruzada (CLT, na sigla em inglês), em que camadas de tábuas são coladas em sentidos alternados, formando painéis enormes e extremamente resistentes, usados como lajes e pisos de edifícios inteiros.
Por que madeira em prédios altos?
A madeira maciça permite construir mais rápido, com menos peso e com uma pegada de carbono muito menor que a do concreto. No Canadá, as normas já liberam edifícios de até 12 andares nesse material — e há propostas para chegar a 18. Um dos pioneiros foi o Tallwood House, residência estudantil de 18 andares na Universidade da Colúmbia Britânica.
O problema é que, para esses prédios serem aprovados, as normas exigem que as estruturas resistam a pelo menos 2 horas de incêndio sem desabar. E faltava entender um ponto crítico: o que acontece nas conexões, os pontos onde peças de aço encontram a madeira para sustentar as lajes apoiadas diretamente sobre pilares, sem precisar de vigas.
O que o teste revelou
Os pesquisadores montaram conexões reais, colocaram carga sobre elas (simulando o peso de um prédio em uso) e as submeteram ao fogo padronizado de ensaio. Foram dois testes: em um, a junta ficou totalmente exposta às chamas; no outro, foi protegida por uma barreira corta-fogo.
O resultado central: nenhuma das duas montagens desabou durante as 2 horas de exposição ao fogo — embora não tenham conseguido sustentar integralmente a carga máxima prevista até o fim do ensaio. Na prática, as estruturas seguraram firme pelo tempo exigido.
Mas o achado mais surpreendente foi sobre o comportamento da própria madeira. Ao contrário do que o senso comum diria, a presença das peças de aço não acelerou a queima da madeira ao redor. Pelo contrário: a taxa de carbonização perto da conexão foi até menor do que em regiões da madeira longe dela.
A explicação está em duas propriedades fascinantes da madeira maciça. Primeiro, quando ela queima, forma uma camada externa de carvão que funciona como um escudo, isolando o interior e fazendo a peça queimar de forma lenta e previsível — diferente do colapso súbito que o calor provoca no aço. Segundo, a enorme massa dos painéis de CLT absorve e atrasa o calor: enquanto um aço exposto diretamente às chamas atingiu sua temperatura crítica (cerca de 538 °C) em apenas 14 minutos, o aço embutido dentro do painel de madeira só foi chegar perto disso depois de cerca de 46 minutos. Ou seja, a madeira acabou protegendo o aço.
O que isso tem a ver com o Brasil
Aqui a notícia ganha contornos bem nacionais. O Brasil é uma das maiores potências mundiais em florestas plantadas — eucalipto e pínus cultivados em larga escala —, o que dá ao país matéria-prima de sobra para entrar de vez na era da construção em madeira. Projetos de edifícios em madeira maciça já começam a aparecer por aqui, impulsionados pela busca por obras mais rápidas, sustentáveis e de menor emissão de carbono.
O grande freio, no Brasil como em qualquer lugar, é cultural: o receio de que madeira e fogo não combinam, ainda mais em um país marcado por tragédias de incêndio. É justamente esse medo que estudos como esse ajudam a recalibrar. A mensagem não é que madeira não queima — é que, bem projetada, ela queima de um jeito lento, controlado e previsível, dando tempo para as pessoas saírem e para o prédio continuar de pé.
No fim, o futuro da construção pode ter menos cara de cimento cinza e mais cheiro de madeira — inclusive aqui, onde a floresta plantada é uma das nossas maiores riquezas.
Estudo: Dagenais, C.; Aram, M.; Yuan, C.; Harmsworth, A. “Influence of Point-Supported Steel-to-Timber Interface Parameters on the Structural Fire-Resistance of Mass Timber Plates.” Buildings, vol. 16, 2301 (2026). Acesso aberto sob licença CC BY 4.0.
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