Pix escorre pelas mãos da família Bolsonaro
Uma primeira pesquisa começa a medir o impacto da ameaça de tarifas do governo Trump, que expôs o incômodo com o sistema de pagamentos do BC
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) botou para circular no domingo, 7, um vídeo (foto) feito com auxílio de Inteligência Artificial para reivindicar mais uma vez para sua família o Pix.
“O Pix é do Brasil, é de graça e foi feito no governo Bolsonaro. Ninguém mexe no nosso Pix!”, diz o pré-candidato à Presidência da República na postagem, que é menos uma defesa do sistema de pagamentos criado pelo Banco Central e mais uma tentativa de defesa de sua candidatura.
Ao contrário do que dizem os apoiadores da família Bolsonaro, a ferramenta que caiu nas graças dos brasileiros não foi criada no governo de Jair. Mas isso não quer dizer que eles não possam surfar a onda. Foi Roberto Campos Neto, o presidente do Banco Central indicado por Bolsonaro, que acelerou o processo de implantação do Pix, por identificar seu potencial, e o sistema de pagamentos começou a funcionar durante a gestão do ex-presidente.
Além disso, Lula ficou marcado para muita gente como inimigo do Pix por causa da normativa da Receita Federal que previa a ampliação do monitoramento das transações, na virada de 2024 para 2025. A crise de confiança foi tal que o governo decidiu revogar a medida, que só entraria em vigor meses depois, no contexto da Operação Carbono Oculto, de combate ao crime organizado.
Incômodo antigo
A vantagem que a família Bolsonaro tinha sobre o assunto começou a escorrer pelas mãos do pré-candidato presidencial do PL, contudo, quando o governo Donald Trump, alegado aliado dos Bolsonaros, remoeu, no contexto do tarifaço, um antigo incômodo com o sistema de pagamentos.
Na origem do Pix, o Banco Central chegou a considerar que o sistema fosse implementado por uma empresa privada, mas concluiu que isso acabaria limitando o Pix a algumas plataformas.
O BC optou pela perspectiva universal do sistema, que implicou no que as autoridades americanas apontaram como um “conflito de interesses” na análise técnica da investigação da Seção 301.
“O papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador da Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas”, diz o relatório que embasa a proposta de tarifas do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos.
O tamanho do estrago
A situação da pré-candidatura de Flávio piorou quando o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro deu a entender, numa entrevista, que o Pix é negociável. O embaixador da família Bolsonaro nos Estados Unidos não chegou a propor a substituição da ferramenta pelo Zelle, o sistema americano que serviu de inspiração ao Pix, entre outros, mas nem seria preciso.
O discurso sobre esse tipo de tema, tão sensível, tem de ser o mais simples e direto possível. Não por acaso Lula e Flávio apareceram com cartazes de nível escolar para dizer que “O Pix é do Brasil”.
Foi divulgado na quinta-feira, 10, o primeiro indício do tamanho do estrago dessa questão para a pré-campanha de Flávio. Segundo pesquisa Genial/Quaest, 46% do eleitorado concorda com a afirmação “Lula afirma que as novas tarifas são uma retaliação ao Pix”.
Outros 36% escolheram a opção “Flávio afirma que as novas tarifas são uma retaliação às declarações do Lula contra os EUA”. Apenas 10% não concordam com nenhuma das afirmações.
A situação é pior para o filho 01 de Bolsonaro entre os eleitores identificados como independentes, considerados determinantes para a eleição: 39% deles concordam com Lula, e 26%, com Flávio.
Patriotismo
Quando se trata de “quem melhor representa hoje o discurso de patriotismo e defesa dos interesses do Brasil”, a proporção entre Lula é Flávio é praticamente a mesma da questão sobre o Pix: 47% optaram pelo petista, e 37% escolheram o senador.
No caso dos independentes, 41% selecionaram Lula, e 25%, Flávio.
O impacto dessa crise do Pix para a candidatura do filho 01 de Bolsonaro vai depender do desenlace da questão nos Estados Unidos. A imposição de novas tarifas já teria o condão de prejudicar a família Bolsonaro, pela proximidade alegada com o governo Trump.
Com o Pix como bode expiatório, a situação eleitoral só piora, e Flávio nem sequer conseguiu se recuperar ainda da associação a Daniel Vorcaro pelo filme Dark Horse.
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