A cidade fantasma de luxo construída para 1 milhão de moradores que hoje abriga só 9 mil pessoas na Malásia
Cidade quase vazia ainda tenta se reinventar com zona econômica especial e comunidades digitais
Imagine uma cidade com torres imponentes, vilas novas, praias, hotéis, áreas comerciais e transporte interno, tudo impecavelmente conservado, mas quase sem ninguém. Esse é o retrato de Forest City, um megaprojeto urbano erguido na Malásia, em frente a Singapura, que deveria abrigar um milhão de pessoas e hoje é considerada uma das maiores cidades fantasma do mundo.
O que era para ser a cidade do futuro e virou símbolo de fracasso imobiliário
Forest City nasceu como uma aposta bilionária da incorporadora chinesa Country Garden, uma das maiores do setor na China. O projeto previa quatro ilhas artificiais com infraestrutura completa, sustentabilidade como bandeira e um apelo direto a compradores chineses que buscavam imóveis de investimento no exterior a preços mais acessíveis.
Apenas uma das quatro ilhas chegou a ser parcialmente desenvolvida. Das centenas de milhares de moradores esperados, o local hoje abriga cerca de 9 mil residentes. Torres com andares inteiros sem luz acesa, lojas fechadas ou que nunca abriram e vilas novas aparentemente nunca habitadas: a estrutura está pronta, mas a vida não chegou na proporção prometida.

Como a bolha imobiliária chinesa derrubou um projeto desse tamanho
Para entender o vazio de Forest City, é preciso olhar para o mercado imobiliário chinês. A partir dos anos 1990, reformas nos direitos de uso da terra transformaram imóveis na principal forma de investimento das famílias chinesas. Incorporadoras passaram a vender unidades antes de construí-las, usando o dinheiro para comprar mais terrenos e assumir mais dívidas, alimentando uma bolha especulativa de proporções históricas.
A partir de 2017, restrições do governo chinês a investimentos estrangeiros cortaram o fluxo de compradores. Novas limitações de crédito apertaram as incorporadoras e, em 2020, a pandemia interrompeu o que restava de planos e parcerias. O resultado foi uma cidade presa num limbo, grande demais para desaparecer e pequena demais em ocupação para justificar sua existência. Hoje, o projeto carrega uma dívida estimada em 190 bilhões de dólares.
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O que chama atenção em quem visita ou mora em uma cidade quase vazia
Quem circula por Forest City relata uma experiência perturbadora. O lugar não está em ruínas: está limpo, paisagisticamente cuidado e aparentemente pronto para receber moradores. São poucos os residentes encontrados, e seus perfis revelam muito sobre o tipo de pessoa que escolhe viver ali. Entre os relatos coletados no local, os moradores apontam como atrativos:
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Yes Theory explorando a cidade fantasma de Forest City.
Por que Forest City pode não estar condenada ao abandono definitivo
Uma virada inesperada começa a mudar a narrativa. A Network School, iniciativa que busca transformar comunidades digitais em comunidades físicas de longo prazo, instalou uma operação em Forest City com cerca de 100 participantes. A cidade também integra uma zona econômica especial da região de Johor, com incentivos fiscais para atrair empresas e talentos globais. Para os envolvidos no projeto, o vazio não é um problema, mas uma oportunidade rara de construir algo novo sem as restrições de uma cidade já consolidada.
O perfil de quem a Network School quer atrair para o local é bastante específico. A iniciativa mira em:
- Empreendedores que encontram barreiras para entrar em hubs como o Vale do Silício
- Profissionais de tecnologia em busca de comunidades internacionais alternativas
- Pessoas interessadas em novos modelos de convivência, governança e desenvolvimento
- Nômades digitais que querem transformar comunidade virtual em presença física real
Forest City é um fracasso irreversível ou um laboratório urbano único no mundo
A resposta honesta é que ninguém sabe ainda. O que está claro é que Forest City se tornou símbolo dos limites do urbanismo planejado de cima para baixo: uma cidade fisicamente completa, mas socialmente incompleta, construída antes de existir uma comunidade real para habitá-la. A especulação substituiu o planejamento humano, e o resultado está lá, visível e quase intocado, à beira de Singapura.
Mas é justamente esse vazio que começa a atrair um novo tipo de habitante, pessoas que enxergam na cidade esquecida uma tela em branco. Se Forest City vai se tornar uma ruína moderna ou um experimento urbano sem precedentes, o tempo vai dizer. Por enquanto, ela segue de pé, limpa, silenciosa e cheia de perguntas sem resposta.
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