Estudo mostra que quem come carne têm mais chances de viver até 100 anos, mas há um porém
Carne e longevidade: o estudo e o porém
Um estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition em dezembro de 2025 acompanhou mais de 5.000 chineses com 80 anos ou mais e encontrou algo que contraria a narrativa mais comum sobre alimentação saudável: quem seguia dieta sem carne tinha 19% menos chance de chegar aos 100 anos do que quem comia carne. Mas o porém é tão importante quanto o resultado — e ele muda completamente a leitura.
Como o estudo foi feito e quem participou?
A pesquisa usou dados do Chinese Longitudinal Healthy Longevity Survey (CLHLS), um dos maiores levantamentos sobre saúde de idosos no mundo, iniciado em 1998 na China. Os pesquisadores acompanharam 5.203 participantes com 80 anos ou mais até 2018 e compararam quem chegou aos 100 com quem morreu antes disso.
Ao final, o estudo identificou 1.459 centenários e os comparou a 3.744 não-centenários. Os participantes foram classificados em onívoros e vegetarianos, subdivididos em veganos, ovo-lacto-vegetarianos e pesco-vegetarianos. O resultado geral mostrou que vegetarianos tinham odds ratio de 0,81 — cerca de 19% menos probabilidade de virar centenário.

Qual é o porém que muda tudo?
O dado mais importante do estudo não está na manchete: a associação negativa entre dieta vegetariana e longevidade extrema foi encontrada somente em participantes abaixo do peso, com Índice de Massa Corporal inferior a 18,5. Em idosos com peso normal ou acima, a diferença desapareceu. Estar abaixo do peso depois dos 80 anos já é, por si só, um fator de risco grave para fragilidade e mortalidade.
Além disso, nem todos os tipos de dieta sem carne foram afetados igualmente. Os resultados por subgrupo são:
Por que os resultados são diferentes para idosos com mais de 80 anos?
A explicação central, segundo a pesquisadora Chloe Casey, professora de Nutrição e Comportamento da Universidade de Bournemouth que analisou o estudo, é que as necessidades nutricionais mudam radicalmente depois dos 80 anos. Nessa faixa etária, o corpo perde massa muscular e densidade óssea com mais velocidade, o apetite cai e o risco de desnutrição sobe.
O foco nutricional na velhice avançada deixa de ser prevenir doenças crônicas de longo prazo e passa a ser manter peso, preservar músculo e garantir nutrientes essenciais em cada refeição. Dietas vegetarianas estritas, sem planejamento cuidadoso, podem dificultar isso nessa fase específica da vida.
Isso significa que dietas vegetarianas fazem mal à saúde?
Não — e o estudo em si não diz isso. O que a ciência mostra há décadas continua válido: dietas baseadas em plantas estão associadas a menor risco de doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e obesidade em adultos mais jovens. Esses benefícios existem e são bem documentados. O estudo chinês aponta um cenário específico: idosos com mais de 80 anos, abaixo do peso, sem proteína animal suficiente.
Também vale lembrar que se trata de um estudo observacional, ou seja, ele mostra associações, não causa e efeito. A população estudada é chinesa, com hábitos alimentares, genética e contexto socioeconômico próprios, o que limita generalizações globais.
| O que o estudo mostrou | O que isso significa na prática | Contexto |
|---|---|---|
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Vegetarianos: 19% menos chance de chegar aos 100
OR 0,81 — comparado a onívoros
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Associação real, mas restrita a um subgrupo específico | Só em abaixo do peso |
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Veganos estritos: maior impacto
Sem nenhum produto animal
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Risco de carências de B12, proteína, cálcio e vitamina D | Risco em idosos |
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Pesco e ovo-lacto-vegetarianos: sem diferença
Comem peixe, ovos ou laticínios
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Proteína animal de qualidade parece compensar o risco | Sem diferença |
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Vegetarianos com peso normal: sem diferença
IMC ≥ 18,5
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O risco some quando o idoso mantém peso adequado | Sem diferença |
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Dietas vegetarianas em adultos jovens
Décadas de pesquisa anteriores
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Menos risco cardíaco, diabetes e obesidade — esse dado não muda | Benefício mantido |
O que muda na alimentação conforme envelhecemos?
A mensagem central do estudo é menos sobre carne e mais sobre adaptação. O que funciona aos 40 pode precisar de ajuste aos 80. Depois dessa idade, o corpo precisa de mais proteína para frear a perda muscular, de vitamina B12 (absorvida com menos eficiência com o envelhecimento), de cálcio e vitamina D para os ossos, e de calorias suficientes para não perder peso.
Isso não é uma defesa do consumo irrestrito de carne nem uma condenação das dietas vegetarianas. É um lembrete de que a longevidade não depende de uma regra alimentar única válida para toda a vida, mas de ajustar as escolhas à fase em que se está. Se você tem mais de 80 anos ou acompanha alguém nessa faixa, vale conversar com um nutricionista sobre como garantir esses nutrientes, independentemente de comer ou não carne.
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