Pela primeira vez, um túnel subaquático poderia conectar dois continentes e transformar a região: uma infraestrutura avaliada em 8,5 bilhões de euros
O sonho de furar o mar entre dois continentes: o túnel que ligaria Europa e África a 475 metros de profundidade
A ideia nasceu em 1869 e ainda não virou concreto. Espanha e Marrocos seguem estudando como cruzar o Estreito de Gibraltar por baixo da água, num projeto que pode redefinir o mapa de transporte entre os dois continentes.
Por que o túnel não segue a rota mais curta?
A linha mais curta entre Europa e África não foi a escolhida. No ponto chamado Cañón do Estreito, apenas 14 km separam as duas margens, mas ali o mar chega a cerca de 900 metros de profundidade.
Por isso os engenheiros descartaram esse caminho. O traçado preferido liga Punta Paloma, na província de Cádiz, a Punta Malabata, perto de Tânger, aproveitando uma faixa mais rasa conhecida como Umbral do Estreito. A rota fica mais longa, perto de 42 km, porém tecnicamente mais viável.

Um projeto que atravessou mais de 150 anos
O desejo de unir as duas margens vem de longe. Segundo a Sociedad Española de Estudios para la Comunicación Fija a través del Estrecho de Gibraltar (SECEGSA), o primeiro relatório técnico saiu em 1869, pelo então Ministério de Fomento espanhol.
Ao longo do século XX, surgiram propostas de todo tipo: túneis escavados, um tubo submerso e até uma ponte suspensa. A ponte foi abandonada por causa da profundidade do mar e da forte atividade sísmica da região. Em 1995, após um colóquio internacional em Sevilha, a solução de túnel ferroviário escavado foi definida como a mais segura.
As sociedades estatais SECEGSA, na Espanha, e SNED, em Marrocos, coordenam os estudos desde o início dos anos 1980. Décadas de sondagens marinhas mapearam um fundo geológico complexo, cheio de paleocanais preenchidos por brechas argilosas.
Como seria a travessia por baixo do mar?
O túnel não seria pensado para carros particulares. O desenho atual prevê uma conexão exclusivamente ferroviária, com três galerias paralelas.
Duas galerias seriam para a passagem dos trens, uma em cada sentido, e a terceira serviria a manutenção e a evacuação de emergência. O modelo lembra o Eurotúnel, que liga França e Reino Unido sob o Canal da Mancha.
- Extensão total: cerca de 42 km entre os terminais espanhol e marroquino.
- Trecho submarino: aproximadamente 28 km passariam sob o mar.
- Profundidade máxima: o traçado desceria até cerca de 475 metros abaixo do nível do mar.
- Comparação: o Eurotúnel tem 50,5 km, sendo portanto mais longo que o túnel de Gibraltar projetado.
Quais são os maiores desafios de engenharia?
Os obstáculos são enormes. As perfurações precisariam vencer até 475 metros de profundidade, em terrenos instáveis e numa zona de risco sísmico constante.
Some-se a isso as fortes correntes e os ventos característicos do Estreito, que já complicaram as campanhas de sondagem feitas a partir de navios. Em estudos anteriores, as equipes executaram mais de 3.000 metros de furos para entender o leito marinho, alcançando 325 metros abaixo do fundo do mar, segundo a engenharia do projeto. O custo estimado da obra varia conforme a fonte, em uma faixa que vai de 8,5 bilhões a 15 bilhões de euros, valor ainda dependente dos relatórios finais.

Quando o túnel pode sair do papel?
A decisão definitiva ainda não foi tomada. Espanha e Marrocos estabeleceram o ano de 2027 como prazo para avaliar riscos, custos e oportunidades antes de bater o martelo.
Caso o projeto receba sinal verde, as obras preparatórias não começariam antes de 2030. A inauguração, no melhor cenário, ficaria para o horizonte de 2040. Até lá, o Estreito de Gibraltar segue sendo uma fronteira de água por vencer, e a ligação ferroviária permanece um dos grandes sonhos da engenharia moderna.
Uma travessia que ainda mora no futuro
O túnel de Gibraltar carrega mais de 150 anos de projetos, sondagens e adiamentos. É uma obra que mistura ambição continental, geologia difícil e uma vontade política que vai e volta a cada década.
Vale acompanhar de perto os próximos anos, porque a decisão de 2027 pode transformar uma das ideias mais antigas da engenharia europeia em algo que você um dia atravessará de trem entre dois continentes.
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