Arqueólogos abrem túmulos de mosteiro medieval em Barcelona e encontram plantas funerárias, crânios perfurados e um feto mumificado
A investigação no Mosteiro de Pedralbes revelou práticas funerárias, disputas de poder e marcas de violência preservadas por quase sete séculos.
Um mosteiro medieval em Barcelona guardava muito mais do que orações e silêncio. Quando arqueólogos abriram os túmulos do Mosteiro Real de Santa Maria de Pedralbes, encontraram plantas funerárias de quase 700 anos, crânios com perfurações e até um feto mumificado. A descoberta reescreveu o que se sabia sobre uma das comunidades religiosas mais poderosas da Catalunha medieval.
Como os restos mortais da rainha Elisenda foram identificados
O projeto foi iniciado para marcar o 700º aniversário do mosteiro e reuniu especialistas em arqueologia, análise óssea, restauração, vestígios vegetais e genética, segundo o Instituto de Cultura de Barcelona. Ao abrir o túmulo da Rainha Elisenda de Montcada, fundadora do mosteiro em 1327, os pesquisadores encontraram algo raro: fragmentos de um caixão de madeira medieval envoltos por restos de alecrim e murta, plantas que faziam parte dos ritos fúnebres de sua época.
A análise dos ossos revelou que Elisenda tinha cerca de 70 anos na época da morte e apresentava sinais de osteoartrite, doença articular comum no envelhecimento. Junto ao corpo, foram encontrados fragmentos de seda decorados com fios metálicos, indicando que, apesar da vida monástica, sua sepultura carregava marcas de nobreza.

O que a arqueologia desmentiu sobre o túmulo da rainha
Historiadores acreditavam há muito tempo que o sarcófago de Elisenda ficava sobre uma parede entre o presbitério e o claustro da igreja. Mas, como escreveu Sílvia Marimon para o jornal catalão Ara, “a arqueologia desmentiu o mito”. Na realidade, o túmulo é formado por duas seções justapostas, separadas por uma pequena parede, o que mudou completamente a leitura dos especialistas sobre o local.
A pesquisa também confirmou que Elisenda exerceu considerável poder sobre a ordem das Clarissas por quase quatro décadas, sem jamais ter feito votos religiosos formais. Ela faleceu em 1364 e foi sepultada com vestes simples ligadas às tradições monásticas, mas com elementos que revelam seu status real.
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Quais surpresas os outros túmulos escondiam
Os túmulos vizinhos ao da rainha reservaram achados perturbadores. A investigação, que identificou restos de 25 indivíduos sepultados em oito túmulos, revelou que muitos deles não correspondiam às pessoas que a história registrava. Veja o que foi encontrado:
- O túmulo atribuído ao cavaleiro Artau de Foces continha duas mulheres e três crianças, não um homem adulto.
- Uma das mulheres ainda tinha um rabo de cavalo preservado preso ao crânio, sobrevivência incomum após sete séculos.
- O túmulo da segunda abadessa, Francesca Saportella, continha ao menos nove indivíduos sepultados em diferentes épocas, com sinais de reabertura e reutilização repetidas.
- Quatro crânios masculinos nesse mesmo túmulo apresentavam ferimentos de perfuração, indicando morte violenta.
- O torso mumificado de uma mulher foi encontrado com um feto de 20 a 23 semanas de gestação ainda no canal vaginal.

O que os ossos revelam sobre a vida dentro do mosteiro
A análise mais ampla dos restos mortais, conduzida por especialistas em análise óssea e genética, aponta para uma comunidade governada por mulheres de alto status, muitas das quais viveram até idades avançadas para os padrões do século XIV. As evidências ósseas incluem osteoartrite, lesões traumáticas e sinais de possíveis distúrbios metabólicos.
Os costumes funerários variavam bastante: alguns corpos eram envoltos em sacos funerários, outros jaziam diretamente nas câmaras tumulares. Mais de 200 amostras arqueobotânicas permitiram reconstruir rituais ligados à morte, com registros de velas, cordas, oferendas florais e plantas aromáticas. No túmulo da primeira abadessa, Sobirana Olzet, os pesquisadores identificaram ainda uma lesão facial por objeto cortante próxima ao momento da morte, cujas circunstâncias seguem sendo investigadas.
Por que essa descoberta ainda está longe do fim
Pesquisas genéticas já começaram, com extração de DNA de ossos e dentes para confirmar identidades, mapear laços familiares, rastrear origens geográficas e buscar indícios de doenças antigas. A equipe do Instituto de Cultura de Barcelona anunciou que datações adicionais por radiocarbono, estudos têxteis e análises de materiais serão realizados nos próximos meses. Conservadores também encontraram fragmentos de pergaminho com notação musical em um dos túmulos, abrindo uma nova frente de investigação histórica.
O Mosteiro de Pedralbes guardou seus segredos por quase sete séculos. Agora, cada osso, cada planta e cada marca de violência está sendo lido como um documento vivo do passado. Se você tem interesse em história medieval e arqueologia, este é um dos casos mais fascinantes da última década, e ele ainda não terminou.
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