Enquanto humanos plantavam árvores e falhavam, essa tartaruga pode ajudar a reverdecer o deserto
O herói improvável do deserto tem casco e anda devagar
No limite sul do Saara, onde o solo vira uma crosta dura e o termômetro passa dos 60 graus, vive um animal que enfrenta o calor cavando. A tartaruga-de-esporas-africana abre galerias profundas na terra, e cientistas estudam se esse hábito simples pode devolver vida a áreas que viraram só areia.
Um gigante que se esconde debaixo da terra
A tartaruga-de-esporas-africana, de nome científico Centrochelys sulcata, é a maior tartaruga terrestre da África e a maior tartaruga continental do mundo, atrás em tamanho apenas das gigantes insulares de Galápagos e Aldabra. Os machos podem ultrapassar 100 quilos, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
Mas não é o tamanho que chama atenção dos pesquisadores, e sim o que ela faz com as patas. Para fugir do calor extremo do dia e do frio da noite no Sahel, a faixa semiárida que separa o Saara da savana africana, ela escava galerias que chegam a 15 metros de comprimento.

Como uma toca pode virar um pequeno oásis
A resposta está no chão rachado do deserto. Naquela crosta endurecida, a água da chuva escorre pela superfície e evapora antes de penetrar, então as sementes ficam paradas, sem germinar.
Quando a tartaruga cava, ela quebra essa casca dura. A água passa a entrar no solo em vez de escorrer, a terra retém umidade por mais tempo e as sementes finalmente brotam. Ao redor das tocas surgem as primeiras plantas, depois insetos e micro-organismos, e a cadeia de vida começa a se refazer aos poucos.

Por que os cientistas a chamam de engenheira do ecossistema?
Porque ela transforma fisicamente o ambiente de um jeito que ajuda outras espécies a sobreviver. Esse é o nome que ecologistas dão a animais com esse poder de moldar a paisagem.
Um estudo publicado em 2017 na revista científica Frontiers in Ecology and Evolution destacou que a Centrochelys sulcata tem grande potencial nesse papel, sobretudo em zonas semidesérticas onde água e vegetação são escassas. A ideia animou projetos de conservação, embora os especialistas sejam cautelosos: a tartaruga não é uma solução mágica para a desertificação, que envolve seca, mudança do clima e pressão do gado.
Uma espécie que precisa ser salva para salvar o deserto
Há uma ironia nessa história: o animal que pode ajudar a recuperar o solo está ele mesmo ameaçado. A IUCN classifica a espécie como ameaçada de extinção, com populações em queda rápida em boa parte de seu território natural.
As maiores ameaças são a destruição do habitat, a caça e o comércio ilegal de animais exóticos, conforme a avaliação da Lista Vermelha da IUCN. No Senegal, projetos de reprodução e reintrodução tentam reverter o quadro há décadas, devolvendo à natureza uma espécie nativa que havia desaparecido de muitas áreas. Vale acompanhar o trabalho com essa tartaruga e ver até onde um único animal pode reescrever o destino de uma paisagem inteira.
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