227 caixões de concreto do tamanho de prédios de 10 andares erguem o maior porto automatizado do mundo
Estruturas gigantes de concreto sustentam a maior operação portuária automatizada
Um dos menores países do planeta está fincando no mar uma muralha de concreto com quase 10 quilômetros de extensão. Singapura, com pouco mais de 730 km² de território, aposta US$ 20 bilhões para erguer o Porto de Tuas, projetado para se tornar o maior terminal de contêineres totalmente automatizado já construído.
Caixões de 10 andares formando uma muralha no mar
A peça central da obra fica quase invisível, submersa sob a linha d’água. São 227 caixões de concreto, cada um com a altura de um prédio de 10 andares, encaixados lado a lado para formar 9,1 km de muro de contenção na segunda fase do projeto, segundo a Autoridade Marítima e Portuária de Singapura (MPA).
Esses blocos gigantes funcionam como a parede que segura o aterro e protege o terminal das águas do estreito. Na primeira fase, foram 221 caixões, cada um pesando 15 mil toneladas, o equivalente a mais de duas Torres Eiffel em peso. Fabricados no próprio canteiro, eles desenham a borda artificial sobre a qual o porto inteiro vai nascer. A fabricação dos 227 caixões da segunda fase começou em 2018 e só foi concluída em abril de 2022, num ritmo industrial raro na engenharia portuária.

Por que Singapura precisa roubar terra do mar?
Porque não há espaço em terra firme. Singapura é uma cidade-estado insular espremida em um dos menores territórios do mundo, e cada metro quadrado conta. A solução foi avançar sobre o oceano: a segunda fase do Tuas envolve o aterro de 387 hectares, a maior das quatro etapas da obra, segundo o comunicado oficial da MPA.
O projeto reúne um consórcio internacional formado pela japonesa Penta-Ocean, a sul-coreana Hyundai Engineering e a holandesa Boskalis, escolhido pela MPA em 2018. Só a primeira fase do porto exigiu 34 milhões de horas de trabalho e o apoio de mais de 450 empresas, com melhoria de solo em 414 hectares. Quando tudo estiver pronto, o porto ocupará cerca de 1.337 hectares, área comparável a milhares de campos de futebol somados.
Um porto que se opera quase sem gente
O Tuas foi desenhado para funcionar com intervenção humana mínima. Veículos guiados automaticamente, os AGVs, transportam os contêineres entre o cais e o pátio, enquanto guindastes elétricos automatizados fazem a movimentação sob comando remoto.
Tudo é coordenado a partir do Centro de Controle do Porto de Tuas, onde operadores acompanham um gêmeo digital da estrutura em grandes telas. Pela projeção do Ministério dos Transportes de Singapura, será o maior porto totalmente automatizado do mundo, um sistema único e integrado que substitui cinco terminais espalhados pela ilha. As primeiras operações já começaram em 2022, e o terminal movimentou seus primeiros 10 milhões de contêineres enquanto ainda testa a tecnologia.
65 milhões de contêineres por ano até a década de 2040
Os números do destino final impressionam tanto quanto os caixões. Quando concluído, nos anos 2040, o Tuas terá capacidade para movimentar 65 milhões de TEUs por ano, a unidade que mede contêineres padrão de seis metros.
Esse volume é quase o dobro dos 37,5 milhões de TEUs que Singapura movimentou em 2021. O porto terá 66 berços de atracação capazes de receber os maiores navios cargueiros já lançados. A obra avança por fases, e a consolidação de todas as operações de contêineres do país em Tuas está prevista para a mesma década de 2040. Os terminais históricos de Tanjong Pagar, Keppel e Brani devem migrar para o novo complexo até 2027, liberando áreas valiosas no centro da cidade.
A engenharia que tenta ser verde
A escala da obra vem acompanhada de metas ambientais ambiciosas. O operador portuário PSA pretende zerar as emissões líquidas de carbono do Tuas até 2050, segundo o Ministério dos Transportes.
Os equipamentos elétricos, como os guindastes e os AGVs, reduzem as emissões em cerca de 50% em comparação com as máquinas movidas a diesel. Os edifícios do porto foram projetados para consumir quase 60% menos eletricidade que construções de porte semelhante, com geração de energia solar para se aproximar da neutralidade de carbono. A própria construção experimentou tecnologias como inteligência artificial para monitorar o canteiro, com análise de vídeo capaz de detectar atos inseguros e prevenir acidentes na fábrica de caixões.
Uma vitrine para a engenharia marítima
O Porto de Tuas já é tratado como um marco da engenharia mundial antes mesmo de ficar pronto. A combinação de caixões colossais, aterro sobre o mar e automação total resume a aposta de Singapura em liderar a próxima era do comércio global. Reunir num só lugar a capacidade hoje dividida entre cinco terminais é, ao mesmo tempo, uma jogada de engenharia e de geopolítica.
Vale acompanhar o avanço dessa obra que transforma o litoral asiático e mostra, em concreto e aço, até onde a engenharia pode empurrar as fronteiras de um país sem espaço.
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