Enquanto o mundo discute desmatamento, um lixão na Amazônia despeja chorume, fumaça tóxica e risco invisível sobre comunidades

25.06.2026

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Enquanto o mundo discute desmatamento, um lixão na Amazônia despeja chorume, fumaça tóxica e risco invisível sobre comunidades

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5 minutos de leitura 05.06.2026 20:53 comentários
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Enquanto o mundo discute desmatamento, um lixão na Amazônia despeja chorume, fumaça tóxica e risco invisível sobre comunidades

Sem impermeabilização adequada, controle de chorume ou triagem estruturada, o local afeta comunidades próximas há décadas.

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Enquanto o mundo discute desmatamento, um lixão na Amazônia despeja chorume, fumaça tóxica e risco invisível sobre comunidades
Depósito irregular de resíduos contamina o meio ambiente em região amazônica.

A Amazônia que aparece nos noticiários é a da floresta derrubada, dos animais ameaçados e dos rios que encolhem. Mas existe outro problema crescendo silenciosamente no meio de tudo isso: um lixão a céu aberto que contamina rios, envenena plantações, adoece moradores e compromete o futuro de comunidades inteiras. Em Iranduba, a apenas 20 km de Manaus, esse cenário é realidade há décadas.

O lixo que a Amazônia não consegue esconder

Durante muito tempo, os resíduos produzidos por populações ribeirinhas e indígenas eram basicamente orgânicos e se decompunham com facilidade na natureza. Esse cenário mudou. Hoje, o lixo amazônico inclui plástico, vidro, metal e embalagens que não desaparecem sozinhos, e municípios inteiros ainda não têm estrutura para lidar com isso. Iranduba é um desses casos.

O lixão local existe há décadas e acumula resíduos em camadas que chegam a cerca de 7 metros de profundidade em alguns pontos. Não há impermeabilização adequada do solo, nem controle eficiente de chorume, nem cobertura diária do lixo. O resultado é uma ferida aberta no meio de uma das regiões mais sensíveis do planeta.

Acúmulo crônico de materiais sintéticos cria grave problema socioambiental em Iranduba.

Quem vive perto desse lixão e o que está em risco

Iranduba não é apenas floresta. O município abriga comunidades rurais, pequenos agricultores, balneários frequentados por moradores e turistas, e atrações históricas como as ruínas de Paricatuba. Lideranças das comunidades de São Francisco, Maria Zeneide e Novo Paraíso relatam que o lixo é recolhido uma vez por semana e despejado no lixão sem qualquer triagem estruturada. Os impactos são sentidos em várias frentes:

  • Água: o chorume infiltra no solo e pode atingir o lençol freático, comprometendo poços usados para beber, cozinhar e irrigar plantações.
  • Agricultura: pequenos produtores que cultivam alface, pimenta de cheiro e pepino relatam preocupação com a fumaça das queimadas e com a qualidade da água usada nas lavouras.
  • Saúde: a fumaça do lixo queimado é associada a problemas respiratórios, especialmente em crianças que vivem próximo ao local.
  • Turismo: balneários como o igarapé do Papagaio recebem água de áreas próximas ao lixão, o que ameaça a qualidade do lazer e a imagem da região para visitantes.

Leia também: Homens são flagrados por câmeras entrando nos esgotos e polícia abre investigação

O que um aterro sanitário muda nessa equação

A alternativa técnica ao lixão existe e tem nome: aterro sanitário. Diferente do que muitos imaginam, um aterro bem construído não é apenas um lugar para jogar lixo de forma menos feia. É uma obra de engenharia com impermeabilização do solo, drenagem de chorume, captação de gases, cobertura diária dos resíduos, monitoramento ambiental e licenciamento. Um aterro visitado em Santana de Parnaíba, em São Paulo, que atende cerca de 1,4 milhão de pessoas, mostrou na prática como esse modelo funciona.

No local, o biogás gerado pela decomposição do lixo é captado e transformado em energia elétrica usada na própria operação do aterro. Os resíduos passam por triagem mecanizada, e os materiais recicláveis são separados, prensados em fardos e enviados para a indústria, onde viram garrafas, tecidos e outros produtos. É o oposto do que acontece em Iranduba.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Richard Rasmussen discutindo sobre o problema de lixo que poucos conhecem na Amazônia.

Os catadores e o futuro de quem sobrevive do lixo

No lixão de Iranduba, catadores trabalham diariamente em meio ao chorume e à contaminação, separando materiais recicláveis com as próprias mãos. Lideranças comunitárias relatam iniciativas locais para melhorar essa situação, como o uso de bags e caixas para armazenar recicláveis limpos nas comunidades, evitando que os catadores precisem mergulhar no lixo misturado para encontrar o que tem valor.

A transição para um modelo de aterro sanitário não precisa excluir essas pessoas. O exemplo paulista mostrou que é possível integrar trabalhadores em atividades formais de triagem, inclusive com programas sociais. No aterro de Santana de Parnaíba, mulheres do sistema carcerário atuam na separação de resíduos, recebem remuneração e têm redução de pena como parte de um programa de reinserção social.

O problema do lixo na Amazônia é maior do que Iranduba

Dados de 2023 da Associação Brasileira das Empresas de Meio Ambiente mostram que o Brasil gerou aproximadamente 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos naquele ano, com cerca de 41,5% ainda destinados de forma inadequada. A Região Norte aparece como a área com o maior percentual de disposição irregular do país, e o Rio Negro está entre os rios que mais levam poluição plástica aos oceanos. O lixão de Iranduba não é uma exceção regional: é o símbolo de um problema estrutural que o Brasil ainda não resolveu.

A Amazônia protegida nas manchetes não sobrevive sem saneamento, sem políticas de resíduos e sem dignidade para as comunidades que vivem nela. Enquanto o debate ambiental se concentra nas chamas do desmatamento, outro fogo queima silencioso e sem câmeras: o do lixo que ninguém vê, mas que envenena a água, o ar e o futuro de quem mora na maior floresta do mundo.

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