Cientistas perfuraram o fundo do Atlântico a 50 km da costa e encontraram água doce suficiente para abastecer Nova York por séculos
Expedição internacional perfurou até 550 metros abaixo do fundo do mar e trouxe amostras de água quase potável para análise
A cerca de 50 quilômetros da costa de Massachusetts, no fundo do Oceano Atlântico, cientistas de mais de uma dezena de países passaram o verão de 2025 perfurando o leito marinho em busca de algo que ninguém esperava encontrar ali: água potável. O que eles trouxeram à superfície pode mudar a forma como o mundo enxerga o futuro dos recursos hídricos.
A descoberta que confirmou décadas de suspeita
A pista mais antiga data de 1976, quando um navio do governo americano em busca de petróleo encontrou água doce escorrendo dos núcleos perfurados no fundo do mar. Naquele momento, ninguém sabia o que fazer com a informação. Em 2015, pesquisadores da Instituição Oceanográfica Woods Hole e da Universidade Columbia usaram tecnologia eletromagnética para mapear a área e encontraram evidências de um enorme sistema aquífero submarino que poderia rivalizar com o aquífero Ogallala, a vasta reserva de água doce que abastece partes de oito estados das Grandes Planícies americanas.
A Expedição 501, uma colaboração científica de mais de uma dezena de países com orçamento de 25 milhões de dólares, apoiada pela National Science Foundation dos Estados Unidos e pelo Consórcio Europeu de Pesquisa Oceânica, tornou-se a primeira campanha de perfuração sistemática concebida para confirmar a existência dessa água e trazer amostras de volta.

O que a expedição encontrou no fundo do oceano
A operação foi liderada pelos co-chefes científicos Brandon Dugan, geofísico e hidrólogo da Escola de Minas do Colorado, e Rebecca Robinson, da Universidade de Rhode Island. As perfurações aconteceram entre maio e agosto de 2025, ao largo da costa de Massachusetts. A equipe chegou a 550 metros abaixo do fundo do mar em três locais diferentes, com profundidade de água entre 40 e 50 metros.
Ao final, os pesquisadores haviam extraído milhares de litros de água com salinidade de apenas 1 parte por mil, na mesma faixa de muitos aquíferos terrestres. As primeiras estimativas sugerem que o reservatório poderia conter água suficiente para abastecer a cidade de Nova York por centenas de anos. A água doce foi encontrada em profundidades maiores e menores do que o esperado, o que indica que o suprimento pode ser ainda maior do que se calculava.
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Três teorias sobre a origem dessa água
De onde veio essa água é uma das perguntas centrais que os laboratórios ao redor do mundo estão tentando responder agora. O prospecto científico da expedição, publicado em novembro de 2025, apresenta três hipóteses principais para a origem do reservatório:
- Água da chuva antiga infiltrada no solo durante o Pleistoceno, quando o nível do mar era muito mais baixo e a plataforma continental era terra firme
- Água de degelo que escorreu por baixo das camadas de gelo durante o Último Máximo Glacial, quando a camada de gelo Laurentide cobria grande parte da América do Norte
- Água proveniente de lagos proglaciais formados nas bordas do gelo em recuo
A resposta importa diretamente para o futuro do recurso. “Ser jovem significa que era uma gota de chuva há 100 ou 200 anos”, disse Dugan à Associated Press. “Se for jovem, está se recarregando.” Água antiga e aprisionada significaria um suprimento finito. Água jovem significaria um recurso renovável.

Por que essa água ainda não pode ser usada
Antes de qualquer uso prático, pesquisadores precisam responder a questões básicas de segurança. Segundo Jocelyne DiRuggiero, bióloga da Universidade Johns Hopkins que estuda a vida microbiana em ambientes extremos, a água pode conter minerais ou micróbios capazes de causar doenças. DiRuggiero destacou que os mesmos processos que purificam aquíferos terrestres também atuam aqui, mas ninguém jamais estudou esse ambiente submarino. Dezenas de laboratórios ao redor do mundo estão agora sequenciando o DNA das amostras coletadas.
Além dos riscos sanitários, há obstáculos técnicos, jurídicos e ambientais consideráveis. “Se começássemos a bombear essas águas, quase certamente haveria consequências imprevistas”, alertou Rob Evans, geofísico de Woods Hole cuja expedição de 2015 ajudou a mapear o aquífero. O bombeamento poderia perturbar nutrientes que emanam do fundo do mar e alimentam ecossistemas locais, além de retirar água das reservas em terra. Não existem regras claras sobre a quem pertence a água doce submarina.
Uma descoberta que vai além do Atlântico
Em apenas cinco anos, segundo a ONU, a demanda global por água doce deve superar a oferta em 40%. É nesse contexto que a descoberta da Expedição 501 ganha uma dimensão global. Locais como a Ilha do Príncipe Eduardo no Canadá, o Havaí e Jacarta, na Indonésia, estão entre as regiões onde o estresse hídrico coexiste com possíveis aquíferos submarinos. Há evidências anedóticas de que todos os continentes podem ter reservatórios semelhantes.
O que a expedição confirmou é que o planeta esconde reservas de água doce em lugares que nunca foram explorados sistematicamente. As amostras coletadas ainda estão sendo analisadas, as perguntas mais importantes ainda não têm resposta, e os desafios para transformar essa descoberta em solução prática são enormes. Mas a fronteira foi aberta. E o que está escondido a centenas de metros abaixo do oceano pode ser uma das respostas mais importantes para uma das crises mais urgentes do nosso tempo. O mundo está com sede, e a ciência acabou de encontrar um lugar novo para procurar água.
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