Arranha-céu de US$ 750 milhões começou a afundar e virou um dos maiores alertas da engenharia moderna
A torre de luxo precisou de pilares até a rocha depois que o solo começou a ceder sob seus 58 andares
Em São Francisco, um arranha-céu de 750 milhões de dólares virou símbolo de um erro que nenhuma quantia conseguiu apagar completamente. A Millennium Tower, inaugurada em 2009 como endereço de elite, começou a afundar antes mesmo de os moradores desempacotarem as malas e, desde então, arrastou bilhões em prejuízos, batalhas judiciais e uma tentativa de conserto que, por um tempo, piorou tudo.
O prédio que nasceu sobre o solo errado
A Millennium Tower tem 58 andares e 196 metros de altura, erguida no bairro de Transbay, em pleno coração de São Francisco. O problema estava invisível desde o início: em vez de fundar a estrutura na rocha firme, a cerca de 70 metros de profundidade, os engenheiros optaram por mais de 900 pilares de fricção cravados apenas entre 24 e 27 metros, parando na areia. A aposta era que o atrito com o solo sustentaria o peso da torre.
Não sustentou. Logo abaixo da areia existe uma camada de argila antiga da baía, altamente compressível. Sob o peso de 58 andares, ela foi perdendo água lentamente, encolhendo, e levando o prédio junto.

Os sinais ignorados por anos
Em 2010, apenas um ano após a inauguração, relatórios internos já registravam 10 polegadas de afundamento, valor que já superava a previsão máxima para toda a vida útil do edifício. Os compradores, no entanto, não foram informados. Entre 2013 e 2014, coberturas do prédio foram negociadas por valores entre 12 e 13 milhões de dólares.
A verdade veio a público só em agosto de 2016, quando o San Francisco Chronicle revelou 16 polegadas de afundamento acumulado e 6 polegadas de inclinação no topo. Em novembro do mesmo ano, o procurador da cidade abriu processo contra a incorporadora por omissão de informações relevantes aos compradores.
Quando o conserto virou mais um problema
Em 2020, uma equipe da consultoria Simpson Gumpertz & Heger iniciou o plano de correção com 52 novos pilares de aço que desceriam até a rocha. O projeto parecia sólido. Mas a perfuração usava água em alta pressão e vibração contínua para remover o solo, e isso teve uma consequência inesperada. Veja o que aconteceu em sequência:
- A vibração prolongada fez a argila saturada perder coesão, comportando-se como líquido
- O prédio afundou uma polegada extra na base em poucos meses, ritmo inédito há anos
- A inclinação no topo aumentou cinco polegadas adicionais
- Sensores detectaram o movimento em tempo real e alertaram a prefeitura
- A obra foi paralisada primeiro voluntariamente e depois por ordem oficial
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Engenharia Épica mostrando o que está acontecendo com o prédio milionário que não para de afundar.
A solução revisada que finalmente funcionou
No fim de 2021, o projeto foi redesenhado. O número de pilares caiu de 52 para apenas 18, com o objetivo claro de reduzir a perturbação da argila. Cada pilar foi dimensionado para suportar cerca de 453 toneladas, descendo 84 metros até a rocha. Eles foram concentrados nas faces norte e oeste, as que afundavam mais rápido.
Em setembro de 2023, macacos hidráulicos transferiram 18 milhões de libras do peso da torre para os novos pilares. Pela primeira vez, o edifício parou de afundar nas faces ancoradas. A inclinação recuou cerca de 2,5 polegadas no topo. O custo direto da operação chegou a 120 milhões de dólares.
A conta ainda não fechou e o futuro é incerto
O prejuízo total, somando indenizações, processos e desvalorização, ultrapassou meio bilhão de dólares. Apartamentos que valiam 2 milhões de dólares passaram a ser revendidos por cerca de 1 milhão. A vacância do prédio gira em torno de 20%. Em maio de 2026, a inclinação está estabilizada em 28,8 polegadas, abaixo do limite crítico de 40 polegadas que comprometeria elevadores e redes de água e esgoto.
Ainda assim, sensores detectaram um novo fenômeno: a laje de fundação está curvando levemente no centro, o chamado efeito prato. Especialistas divergem sobre o risco, e o debate técnico segue aberto. A Millennium Tower virou o laboratório geotécnico mais caro dos Estados Unidos, e sua maior lição é brutal: ignorar o solo custa sempre mais do que respeitá-lo desde o início. Se você pensa em investir em imóveis de alto padrão, a história desse prédio é uma leitura obrigatória antes de assinar qualquer contrato.
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