Uma pescaria entre pai e filha revela por acaso naufrágio desaparecido há 151 anos e ligado ao incêndio mais mortal da história dos Estados Unidos
Embarcação George L. Newman foi localizada por acaso perto da Ilha Verde e reacendeu a memória do Grande Incêndio de Peshtigo, ocorrido em 1871.
Em agosto de 2022, Tim Wollak e sua filha de 6 anos, Henley, pescavam em um ponto favorito perto da Ilha Verde, em Wisconsin, quando o sonar do barco captou uma forma estranha no fundo do lago. A garota imaginou que fosse o mítico “Polvo da Baía Verde”. O pai suspeitou de história. Ele estava certo, e o que veio a seguir conectou uma tarde de pesca comum ao incêndio mais mortal da história dos Estados Unidos.
Como um sonar de pescaria revelou um segredo de 151 anos
As imagens registradas por Tim Wollak foram publicadas em grupos do Facebook e chamaram a atenção de arqueólogos marítimos da Sociedade Histórica de Wisconsin. Uma busca no banco de dados não encontrou nenhum naufrágio conhecido naquela localização. Em dezembro de 2023, a sociedade trabalhou com o Departamento de Recursos Naturais de Wisconsin para enviar um veículo operado remotamente ao lago.
As imagens confirmaram a descoberta: a barcaça George L. Newman, de 37 metros, uma embarcação desaparecida na mesma noite do incêndio florestal mais mortal da história americana. O naufrágio repousava a menos de 3 metros de profundidade, próximo à ponta sudeste da Ilha Verde.

Quem era o George L. Newman e o que ele carregava
O George L. Newman foi construído em 1855, em Black River, Ohio, pelo construtor naval Benjamin Flint. Era uma barkentina, veleiro de madeira com três mastros que exigia uma tripulação reduzida para operar. No outono de 1871, navegava pelos Grandes Lagos havia 16 anos, carregando uma carga de madeira de Little Suamico, Wisconsin.
Na noite de 8 de outubro, a tripulação se deparou com uma fumaça tão densa que perdeu completamente a visibilidade. Sem enxergar a costa ou o mar à frente, encalharam a embarcação na extremidade sudeste da Ilha Verde. O faroleiro local, Samuel Drew, manteve a luz acesa durante o dia por causa da fumaça. Essa decisão provavelmente salvou todos a bordo.
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O incêndio que matou mais de mil pessoas e a história esqueceu
A fumaça que cegou a tripulação do Newman veio do Grande Incêndio de Peshtigo, que começou no mesmo dia que o famoso Grande Incêndio de Chicago. Enquanto o incêndio de Chicago causou cerca de 300 mortes, Peshtigo matou mais de 1.200 pessoas e queimou entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de acres, tornando-se oficialmente o incêndio mais mortal da história dos Estados Unidos.
O fogo começou como um pequeno foco em vegetação rasteira, provavelmente provocado por operários ferroviários que limpavam terreno para construção de trilhos. Em aproximadamente uma hora, destruiu a cidade de Peshtigo e outras 16 localidades, cruzando até as águas da Baía Verde. O Museu do Incêndio de Peshtigo, administrado pela Sociedade Histórica de Peshtigo, mantém viva a memória da tragédia.

Por que naufrágios como este têm valor histórico inestimável
A Sociedade Histórica de Wisconsin confirmou a identidade da embarcação cruzando as imagens do veículo remoto com registros históricos de naufrágios, localização e características físicas. Nenhuma outra embarcação correspondia ao perfil. Segundo Tamara Thomsen, arqueóloga marítima da sociedade, o navio foi aos poucos se despedaçando em tempestades e engolido pelo banco de areia até ser recentemente exposto. “E então foi meio que engolido pelo banco de areia, coberto pela areia até ser recentemente exposto e descoberto pelos Wollaks”, disse Thomsen à NPR.
Para especialistas, esse tipo de achado vai muito além da curiosidade. Archaeólogos descrevem naufrágios como cápsulas do tempo que revelam detalhes sobre a navegação do século XIX impossíveis de recuperar apenas por registros escritos. Entre os elementos preservados no George L. Newman estão:
- O casco de madeira original, ainda com estrutura identificável
- Restos da carga de madeira transportada na última viagem
- A quilha e o revestimento externo do casco
- A posição de encalhe, que confirma os relatos históricos da noite do acidente
“Os naufrágios nos dão uma visão única do passado porque cada um deles é basicamente como uma cápsula do tempo”, afirmou Jordan Ciesielzyk, especialista marítimo da sociedade histórica, à Popular Mechanics. Ele também observou que 13 naufrágios em Wisconsin foram descobertos no ano anterior, todos por acaso.
O que acontece agora com o sítio do naufrágio
Está previsto um levantamento arqueológico completo do sítio do George L. Newman para a primavera seguinte à descoberta. Mergulhadores irão documentar o naufrágio em detalhe ao longo de vários dias, registrando medidas, imagens de alta resolução e avaliando o estado da estrutura remanescente. A equipe pretende indicar o local para inclusão no Registro Nacional de Lugares Históricos. “Na verdade, ela foi construída em 1855, então é um naufrágio bastante significativo, bastante antigo para os padrões de naufrágios de Wisconsin. O fato de estar ligada ao incêndio de Peshtigo a torna ainda mais especial”, declarou Tamara Thomsen.
O naufrágio fica em águas rasas, próximo a uma área popular para pesca e natação, tornando-o excepcionalmente acessível para um sítio histórico dessa magnitude. Para os Wollak, a descoberta virou patrimônio de família. Henley esperava encontrar um tesouro para resgatar do barco. O tesouro existia, mas estava em outro formato: 151 anos de história silenciada debaixo d’água, esperando por uma tarde de pesca e um sonar ligado na hora certa.
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