Cientistas descobrem metal “alienígena” escondido em tesouro de 3.000 anos
Peças corroídas guardadas em museu espanhol foram analisadas por cientistas e podem mudar a compreensão sobre a metalurgia pré-histórica na Península Ibérica.
Por 60 anos, dois objetos corroídos ficaram encostados em uma vitrine espanhola, ignorados em meio a quase 10 quilos de ouro reluzente da Idade do Bronze. Quando os cientistas finalmente decidiram analisá-los com profundidade, a resposta para o que eram veio de um lugar que ninguém esperava: o espaço sideral.
O tesouro que guardava um segredo fora deste mundo
O Tesouro de Villena veio à tona em 1º de dezembro de 1963, quando o engenheiro civil José María Soler escavou as fundações próximas à cidade de Villena, em Alicante, na Espanha. O que emergiu do solo tornou-se um dos mais ricos tesouros de ouro pré-histórico da Europa: 66 objetos no total, incluindo tigelas, pulseiras, garrafas e peças ornamentais, todos datados entre 1500 e 1200 a.C., período em que o bronze dominava ferramentas e armas em toda a Península Ibérica.
Entre as peças douradas, dois objetos sempre destoaram: uma pulseira e um hemisfério oco com tampa de ouro, ambos claramente feitos de ferro. O problema é que a produção de ferro terrestre só chegou à Península Ibérica por volta de 850 a.C., séculos depois do período em que o tesouro foi enterrado. Durante décadas, os curadores simplesmente os catalogaram como peças antigas de ferro forjado sem explicação e deixaram a questão em aberto.

A análise química que revelou uma origem cósmica
A resposta veio de uma equipe liderada por Salvador Rovira-Llorens, ex-chefe de conservação do Museu Arqueológico Nacional da Espanha, em parceria com pesquisadores do Instituto de Historia do Conselho Superior de Investigações Científicas, em Madri. Com autorização para coletar amostras de ambos os artefatos, a equipe aplicou espectrometria de massa para medir o teor de níquel e o perfil químico completo das peças.
- O ferro meteórico apresenta níveis de níquel muito superiores a qualquer material extraído da crosta terrestre
- Também carrega traços de outros elementos que correspondem à composição típica de meteoritos de ferro, fragmentos de núcleos de corpos planetários que nunca se desenvolveram em planetas completos
- A análise apontou fortemente para origem extraterrestre mesmo com a forte corrosão acumulada ao longo de três milênios alterando a composição elementar
- A própria resistência à corrosão das peças é uma pista: o ferro meteórico reage ao tempo de forma diferente do ferro terrestre fundido
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O que os pesquisadores concluíram e publicaram
As descobertas foram publicadas na revista científica Trabajos de Prehistoria. Nas palavras dos próprios pesquisadores: “Os dados disponíveis sugerem que o gorro e a pulseira do Tesouro de Villena seriam, atualmente, as duas primeiras peças atribuíveis a ferro meteórico na Península Ibérica, o que é compatível com uma cronologia do final da Idade do Bronze, anterior ao início da produção generalizada de ferro terrestre.” Os autores recomendam que técnicas mais recentes e não invasivas sejam aplicadas para construir um conjunto de dados mais robusto sem necessidade de novas amostragens físicas.
A pulseira, com 8,5 centímetros de diâmetro, exibe marcas visíveis de marteladas e modelagem cuidadosa. O hemisfério oco, provavelmente parte de um cetro ou cabo de espada, ainda conserva uma superfície lisa e quase espelhada. Ambas as peças são tecnicamente complexas para o período em que foram produzidas, o que reforça a hipótese de que eram objetos cerimoniais ou de prestígio para uma elite da Idade do Bronze Final.

Villena entra para uma lista seleta da arqueologia mundial
A descoberta coloca os dois artefatos espanhóis em uma categoria raríssima na história da metalurgia humana. O exemplo mais famoso de ferro meteórico trabalhado é o punhal do faraó Tutancâmon, encontrado em seu túmulo datado de aproximadamente 1323 a.C. Outras armas e objetos da Idade do Bronze feitos com material de origem meteórica foram identificados em sítios da Eurásia e do Norte da África, sempre tratados como itens de grande prestígio entre as elites da época.
O que muda no que sabemos sobre os metalúrgicos pré-históricos
Por séculos, a narrativa da metalurgia ibérica seguia uma linha cronológica clara: bronze primeiro, ferro depois, com a transição ocorrendo gradualmente a partir do século IX a.C. Villena quebra essa linearidade. Os metalúrgicos que enterraram aquele tesouro moldavam ferro a partir do céu em um período em que o ferro terrestre ainda era tecnicamente inacessível para toda a região.
Os dois objetos agora ocupam uma vitrine no Museu Arqueológico José María Soler, em Villena, forjados a partir de material que cruzou o sistema solar muito antes de qualquer mão humana o tocar. Se você achava que arqueologia era sobre o que está enterrado na terra, Villena acaba de expandir o horizonte até as estrelas.
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