Como é viver na capital mais poluída do mundo: respirar nesse lugar é equivalente a fumar 50 cigarros por dia
Capital de Bangladesh enfrenta uma das crises ambientais mais graves do mundo, com poluição extrema no ar, rios e alimentos.
Respirar em Daca equivale, segundo especialistas em qualidade do ar, a fumar cerca de 50 cigarros por dia. A capital de Bangladesh, considerada uma das cidades mais densamente povoadas do planeta, enfrenta simultaneamente uma crise do ar, da água, do solo e do saneamento que já mata aproximadamente 270 mil pessoas por ano no país, metade delas crianças.
Um ar que adoece antes mesmo de ser percebido
O índice de qualidade do ar em Daca fica em torno de 190 nas medições por aplicativos de monitoramento, enquanto São Paulo registra cerca de 61 e Lisboa aproximadamente 17. A Organização Mundial da Saúde recomenda limites que Daca ultrapassa em até 15 vezes. Mesmo nos dias considerados bons, moradores relatam dores de cabeça, irritação nos olhos e dificuldade para respirar.
As partículas finas no ar carregam arsênio, chumbo e cobre, substâncias associadas a câncer, doenças cardíacas, danos neurológicos e problemas respiratórios crônicos. A exposição contínua a esse ambiente pode reduzir a expectativa de vida dos moradores em até 7 anos.

Os rios que deixaram de ter vida
Mais de 350 toneladas de lixo são despejadas diariamente nos rios de Daca sem qualquer tratamento adequado. Entre 80% e 90% de todos os dejetos da cidade vão diretamente para as águas. O resultado são rios biologicamente mortos, sem oxigênio suficiente para sustentar vida aquática. Os resíduos lançados incluem os seguintes tipos:
| Tipo / Origem | Descrição dos Efluentes e Resíduos |
|---|---|
| Urbano & Hospitalar | Esgoto doméstico e resíduos hospitalares sem tratamento. |
| Comercial (Alimentos) | Sangue de açougues e restos de mercados de carne e peixe. |
| Industrial | Produtos químicos e resíduos industriais de fábricas têxteis. |
| Esgoto Demográfico | Fezes e urina de uma população de mais de 20 milhões de habitantes. |
O rio Buriganga, um dos mais poluídos do mundo, sustentou pescadores por gerações. Hoje praticamente não possui vida marinha. Ainda assim, parte da população continua usando suas águas para banho, lavagem de roupas e necessidades diárias por absoluta falta de alternativa.
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O maior envenenamento em massa da história recente
Nos anos 1970, o governo de Bangladesh incentivou a perfuração de milhões de poços para combater surtos de cólera. Décadas depois, descobriu-se que a água subterrânea continha altos níveis naturais de arsênio. Entre 50 e 80 milhões de pessoas foram expostas à substância, desenvolvendo câncer de pele, de fígado e de pulmão, além de deformações físicas e mortes prematuras. O caso é considerado o maior envenenamento em massa da história.
Hoje, parte da população ainda utiliza esses poços por não ter outra opção. O governo tenta disponibilizar água filtrada em estações públicas de tratamento, vendida a preços baixos, mas ainda inacessível para os mais pobres. A solução chegou tarde demais para milhões de pessoas.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Cata e Davi mostrando como é viver no país mais poluído do mundo.
A indústria têxtil e o custo que a população paga
Bangladesh é o segundo maior polo têxtil do mundo, atrás apenas da China, com mais de 4.500 fábricas produzindo para grandes marcas internacionais. O problema é que boa parte dessas indústrias descarta resíduos químicos diretamente nos rios, ignorando regulamentações ambientais com apoio de suborno de autoridades. O custo ambiental das roupas baratas vendidas no mundo inteiro é pago pelos moradores de Daca com a própria saúde.
Nos mercados de carne e peixe da cidade, produtos ficam expostos ao ar contaminado sem refrigeração, limpos com água dos próprios rios poluídos, em meio a moscas e lama. Os riscos de contaminação por salmonela, parasitas e metais pesados são constantes e amplamente ignorados pela necessidade imediata de sobrevivência.
Daca é o retrato do que acontece quando o crescimento não tem limite
Em alguns bairros de Daca, a densidade populacional ultrapassa 150 mil pessoas por quilômetro quadrado. Não há lixeiras suficientes, o sistema de coleta é insuficiente, e a cultura de descarte em rios e ruas está normalizada por gerações de ausência de infraestrutura e educação ambiental. Até nos bairros das embaixadas há lagos contaminados e esgoto despejado diretamente na água. A poluição sonora causada pelo trânsito intenso fecha o cerco, com casos documentados de perda auditiva irreversível em crianças.
Daca não é apenas uma crise ambiental. É o resultado acumulado de crescimento urbano sem planejamento, industrialização sem responsabilidade e desigualdade social sem resposta. Enquanto o mundo compra roupas baratas produzidas ali, milhares de crianças morrem por causas ligadas à poluição todos os anos. A pergunta que a cidade impõe não é sobre Bangladesh. É sobre o que o modelo de consumo global está disposto a enxergar.
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