Pesquisadores descobriram que uma planta consegue prever sequências sem neurônios, e isso pode mudar o que sabemos sobre inteligência
Experimento com luz e escuridão abriu novas dúvidas sobre memória, aprendizagem e processamento celular.
Uma planta sem cérebro, sem neurônios e sem sistema nervoso foi capaz de aprender a contar. A descoberta, publicada na revista Cognitive Science no final de 2025, pode redefinir o que a ciência considera necessário para processar informações e antecipar eventos.
A planta tímida que surpreendeu os cientistas
O estudo foi conduzido pelo professor de psicologia Peter Vishton, da Universidade William & Mary, em parceria com sua ex-aluna Paige Bartosh. O objeto de pesquisa foi a Mimosa pudica, conhecida popularmente como planta-tímida ou não-me-toque. A planta fecha suas folhas ao toque e à escuridão, reabrindo-as com a luz, num padrão chamado nictinastia. Foi exatamente esse ritmo que os pesquisadores usaram como ferramenta de medição.
Dentro de uma tenda úmida no Centro Integrado de Ciências de William & Mary, as plantas foram expostas a um ciclo repetitivo de três dias: dois dias com 12 horas de luz e 12 de escuridão, seguidos de um terceiro dia completamente no escuro. Após cerca de cinco repetições, as plantas passaram a se movimentar mais antes dos dias com luz e menos antes dos dias escuros. Elas pareciam ter aprendido a sequência.

O comportamento das plantas seguiu o mesmo padrão visto em animais
A curva de aprendizado observada nas plantas correspondeu a um padrão clássico dos estudos com animais. Vishton explicou a semelhança com clareza: “Se você está ensinando um rato a realizar uma série de ações em uma determinada ordem, você esperaria ver um período em que ele estaria descobrindo a sequência e, em seguida, um aumento gradual em sua capacidade de prever o padrão.” As plantas seguiram a mesma trajetória.
Para eliminar a hipótese de que as plantas simplesmente seguiam um ritmo circadiano fixo, os pesquisadores reduziram a duração do dia de 24 para 20 horas. As plantas se adaptaram quase imediatamente, reorganizando seus movimentos conforme o novo cronograma. Isso descartava a explicação de um relógio biológico interno como causa do comportamento.
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O que acontece quando os ciclos saem da janela esperada
Em uma série final de testes, os pesquisadores usaram ciclos de duração aleatória, variando de 10 a 32 horas. Os resultados revelaram um limite claro de processamento. Os principais achados foram estes:
- Ciclos entre 12 e 24 horas: as plantas continuaram antecipando corretamente os dias claros e escuros.
- Ciclos abaixo de 12 horas: o padrão antecipatório se desfez e as plantas pararam de responder corretamente.
- Ciclos acima de 24 horas: o mesmo colapso ocorreu, sugerindo uma duração máxima antes que o registro do evento se perca no substrato biológico.
Vishton resumiu a conclusão com precisão: “A explicação mais simples para esse resultado é que essas plantas estão monitorando a quantidade de eventos que ocorrem, e não simplesmente reagindo ao tempo.”
Como uma planta processa informação sem neurônios
O movimento da Mimosa pudica é mediado por estruturas chamadas pulvinos, intumescências semelhantes a articulações na base de cada folha. Elas contêm duas camadas de células motoras que regulam o movimento por meio de variações na pressão de turgor, impulsionadas por trocas iônicas de potássio, cloreto e cálcio. Não há neurônios envolvidos. O processamento descrito no estudo ocorreria, portanto, por mecanismos bioquímicos e celulares ainda não mapeados.
Vishton reconhece os limites do seu papel na pesquisa: “Espero que os químicos e biólogos deste mundo possam fazer mais perguntas mecanísticas para entender como isso realmente acontece.” O pesquisador foi responsável por caracterizar o comportamento. A investigação dos mecanismos internos ainda está por vir.
Por que essa descoberta importa além das plantas
A pergunta que o estudo deixa no ar é mais ampla do que a biologia vegetal. Se uma planta sem neurônios consegue enumerar eventos e antecipar padrões, isso levanta uma questão direta sobre células não neuronais em animais e humanos. Vishton foi explícito: “Existem muitas células em animais e humanos que não são neurônios. E simplesmente presumimos que elas não estão envolvidas na aprendizagem. Mas talvez possam estar.” Entre as aplicações especulativas identificadas pelos pesquisadores estão sensores baseados em plantas, dispositivos computacionais de origem biológica e investigações sobre o aprendizado em nível celular.
Os autores são cautelosos: o artigo recomenda replicação com grupos de controle adicionais antes que as conclusões sejam consideradas definitivas. Ainda assim, a descoberta já reescreve uma premissa consolidada. Durante décadas, a ciência associou memória e tomada de decisão exclusivamente a neurônios. A planta-tímida, sem cérebro e sem sistema nervoso, acabou de colocar essa certeza em xeque. Acompanhar o que vem a seguir pode ser tão importante quanto a descoberta em si.
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