A parceria indigesta entre Lula e um Camarão

22.10.2026

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O Antagonista
A parceria indigesta entre Lula e um Camarão
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Wilson Lima
4 minutos de leitura 14.05.2026 10:41 comentários
Análise

A parceria indigesta entre Lula e um Camarão

O caso maranhense de apoiar um azarão na disputa local se transformou numa espécie de laboratório político de alto risco para o petista

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Wilson Lima
4 minutos de leitura 14.05.2026 10:41 comentários 0
A parceria indigesta entre Lula e um Camarão
Foto: Divulgação

Há algo de profundamente contraditório na estratégia do presidente Lula para o Maranhão em 2026. Em um momento em que o petismo luta para conter desgaste político, perda de popularidade e sinais de fadiga eleitoral até mesmo no Nordeste, o Palácio do Planalto resolveu abrir mão do pragmatismo para mergulhar em uma disputa movida mais por interesses de grupos internos do que pela lógica eleitoral.

O caso maranhense se transformou numa espécie de laboratório político de alto risco para Lula — e talvez no exemplo mais explícito de como o PT passou a confundir governabilidade com submissão a alianças de ocasião.

A conta é simples. De um lado, está o governador Carlos Brandão (sem partido), aliado do governo federal, com aprovação na casa dos 70% segundo a Quaest, base municipal robusta e forte capilaridade política no interior do estado.

São pelo menos 180 prefeitos no palanque do atual governador que apoia o sobrinho na disputa pelo cargo, Orleans Brandão (MDB). E, em estados como o Maranhão, a capacidade de mobilização municipal conta. E conta muito.

Do outro lado, aparece o vice-governador Felipe Camarão, rompido com Brandão, nome patrocinado pelo PT nacional e associado diretamente ao ministro do STF Flávio Dino. O problema é que, até o momento, Camarão não consegue demonstrar musculatura eleitoral compatível com o tamanho da aposta feita pelo partido. Atualmente, ele aparece na lanterna das pesquisas de intenção de voto, inclusive quando vinculado à imagem de Lula.

O slogan, a combinação Lula e Camarão, parece extremamente indigesta nesse momento. Politicamente, trata-se de uma decisão difícil de explicar.

O PT sempre foi um partido profundamente pragmático nas disputas estaduais do Nordeste. Lula construiu sua hegemonia regional justamente por compreender a importância das máquinas locais, das alianças amplas e do municipalismo eleitoral. No Maranhão, porém, o governo parece ter optado pelo caminho oposto: trocar um palanque consolidado por uma candidatura dependente quase exclusivamente de articulações de cúpula.

A impressão que fica é que a disputa deixou de ser eleitoral para se tornar um capricho pessoal do grupo vinculado a Dino. O ministro afirma aos quatro cantos em Brasília que não move um único dedo em relação à política local. Algo difícil de se acreditar. Principalmente pelos movimentos do próprio magistrado nos últimos anos.

Em 2025, o ministro, em uma palestra, deu um pitaco, em tom de brincadeira, sobre a suscessão estadual uma palestra universitária em São Luís, capital do Estado. O ato, no entanto, rendeu a Dino um pedido de impeachment protocolado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Se isso não fosse suficiente, como tem mostrado O Antagonista, o próprio Dino vem atuando em várias ações no Supremo Tribunal Federal que tem impacto direto no pleito local.

Ele é relator de ao menos quatro investigações da Polícia Federal que miram Brandão, do qual foi aliado. As apurações miram uma disputa pela indicação de vagas no Tribunal de Contas do Estado e uma possível interferência em julgamento no Superior Tribunal de Justiça em um caso de homicídio. Houve até um pedido de Dino para obter acesso às provas da Operação Sem Desconto envolvendo o senador Weverton Rocha (PDT), que negocia palanque com Brandão.

No fundo, o Maranhão expõe um dilema maior do lulismo em 2026: o governo ainda consegue distinguir alianças estratégicas de dependência política?

Porque, até aqui, a impressão transmitida pelo episódio é a de um PT que deixou de escolher candidatos pela viabilidade eleitoral e passou a escolhê-los pela conveniência das relações de poder em Brasília.

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Wilson Lima

Wilson Lima é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão. Trabalhou em veículos como Agência Estado, Portal iG, Congresso em Foco, Gazeta do Povo e IstoÉ. Acompanha o poder em Brasília desde 2012, tendo participado das coberturas do julgamento do mensalão, da operação Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff. Em 2019, revelou a compra de lagostas por ministros do STF.

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