Crusoé: Jiu-jítsu brasileiro na Ucrânia
Em Centro de Reabilitação, soldados feridos no campo de batalha treinam com civis sob a bandeira brasileira
Um homem calvo, com tatuagens, exercitando-se calma e disciplinadamente num aparelho especial, praticamente não transparece sua história. Pavlo Polishuk, 38 anos, perdeu as duas mãos num milissegundo: ele ouviu o som do drone FPV (first person view, ou visão em primeira pessoa) antes de ver qualquer coisa, mas não teve tempo de reagir.
A explosão veio do alto, em plena região de Donetsk, enquanto ele e sua equipe operavam um robô de desminagem numa área que precisava ser limpa para que a vida pudesse, algum dia, voltar.
Três meses depois, Pavlo está sentado numa sala de reabilitação no centro de Kiev, com os braços já cicatrizados. Ele fala com calma, mas quase com frieza técnica, sobre o que veio depois do impacto. Depois, sorri. “Quero voltar para os meus camaradas quando me recuperar. Preciso estar lá. Há muitas maneiras de ainda ser útil e a Ucrânia, meu país, precisa de mim.”
O Centro de Reabilitação onde ele está internado funciona dentro de um hospital do Ministério do Interior ucraniano, que tem uma parceria com a iniciativa privada. É hoje o maior projeto de reabilitação de militares do país. Fundado em junho de 2022 pelos filantropos Victor e Olena Pinchuk, com os recursos obtidos na venda de uma escultura de Jeff Koons num leilão da Christie’s em Londres, o projeto já tem 18 unidades espalhadas por cidades como Lviv, Odesa, Dnipro e Chernihiv. Mais de 40 mil pacientes passaram pela rede.
A demanda é proporcional à escala da catástrofe. Desde fevereiro de 2022, estima-se que mais de 100 mil ucranianos, entre militares e civis, perderam um ou mais membros.
Para efeito de comparação, as guerras do Afeganistão e do Iraque produziram, juntas, cerca de 1.700 amputados ao longo de dezesseis anos, segundo o Departamento de Defesa americano.
Em Dnipro, a menos de cem quilômetros da linha de frente, o hospital Mechnikov recebe entre 60 e 100 feridos por noite, a maioria necessitando de amputação, e realiza 50 ou mais cirurgias de emergência nas horas de escuridão, quando as ambulâncias conseguem entrar na cidade sem atrair drones.
Ivan Matyash, 26 anos, chefe do departamento de reabilitação da unidade de Kyiv, conduz o tour com a objetividade de quem já repetiu o roteiro…
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