IA vende o “admirável mundo novo” nas ruas de São Francisco
Anúncios controversos omitem riscos, citam investidores e usam jargões incompreensíveis fora da bolha do Vale do Silício
Um levantamento do jornal San Francisco Chronicle identificou que metade de todos os outdoors de São Francisco promove produtos, plataformas ou infraestrutura de inteligência artificial.
O mapeamento, que catalogou os anúncios espalhados pela cidade, expõe como o setor de IA passou a ocupar não apenas os escritórios do Vale do Silício, mas também o espaço público urbano — e revela as prioridades e omissões da indústria em sua comunicação com o mercado.
Foco em negócios, silêncio sobre riscos
A maioria dos anúncios é direcionada a executivos e gestores de tecnologia em busca de vantagem competitiva.
As campanhas enfatizam recursos como autonomia de agentes, confiabilidade e escalabilidade — vocabulário típico de decisões corporativas. Temas como segurança, alinhamento com valores humanos e governança de IA, debatidos internamente pelo setor, estão ausentes da publicidade.
A exceção é a empresa Okta, que anuncia gestão de identidade e controle de acesso para agentes de IA. Seu outdoor diz: “Construa e proteja agentes de IA desde o primeiro dia. A Okta protege a IA”.
Substituição de empregos vira slogan
A startup Artisan AI adotou uma abordagem diferente. A empresa, que comercializa “trabalhadores” digitais, espalhou pela cidade anúncios com a frase “Pare de contratar humanos”. Em um dos outdoors, de dois andares, uma mulher pronuncia a frase enquanto um homem aponta para ela, incentivando a contratação de “Ava” — nome dado aos avatares digitais da empresa.
A campanha gerou críticas e alguns painéis foram vandalizados. O fundador da Artisan, Jasper Carmichael-Jack, descreveu a estratégia como “marketing de choque”.
Outras empresas adotam linguagem mais técnica, mas igualmente direcionada a um público restrito. A Baseten, por exemplo, usa o slogan “tenha controle sobre sua própria inferência” — referência a processos de produção de IA pouco conhecidos fora do setor. Já a AgentMail reproduz em outdoor um tuíte do investidor Paul Graham, fundador da Y Combinator, sem explicar quem ele é ou o que a empresa faz.
Mensagem para dentro da bolha
O conjunto dos anúncios aponta para uma publicidade voltada principalmente ao próprio ecossistema tecnológico da cidade. Referências a figuras como Graham ou jargões como “inferência em produção” são imediatamente compreensíveis para profissionais do setor, mas opacos ao público geral.
O contraste seria mais nítido em outras regiões dos Estados Unidos. Em cidades fora do circuito tecnológico, da “ilha da fantasia” do Vale do Silício, mensagens como “pare de contratar humanos” teriam recepção diferente — menos irônica e mais literal.
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