Há mais de 200 anos, cerca de 39 imigrantes chegaram de barco e fundaram a cidade que virou o berço da cultura germânica no Brasil
A cidade gaúcha que ainda celebra cultos em alemão há 200 anos a 34 km de Porto Alegre
Em 25 de julho de 1824, 39 imigrantes desembarcaram nas margens do Rio dos Sinos e mudaram para sempre a história do Rio Grande do Sul. Foi assim que nasceu São Leopoldo, a cidade reconhecida por lei federal como o berço da colonização alemã no Brasil.
Como 39 pessoas fundaram o berço da imigração alemã
Os primeiros colonos zarparam do porto de Hamburgo no veleiro Protector em março de 1824. Depois de passarem pelo Rio de Janeiro, chegaram em julho ao terreno da desativada Real Feitoria do Linho Cânhamo, antiga propriedade imperial criada em 1788 para fabricar cordas de navio.
O grupo inicial reunia nove famílias entre católicas e evangélicas. A colônia recebeu o nome em homenagem ao santo padroeiro da imperatriz Leopoldina, esposa de Dom Pedro I. Em pouco mais de dois anos, o povoado já tinha mais de 2.000 habitantes, segundo a Prefeitura de São Leopoldo.

O segredo dos artesãos que escondiam os arquitetos
A historiografia tradicional pintou os imigrantes alemães como agricultores. Os números contam outra história. Entre 1824 e 1845, 60% dos homens da colônia eram artesãos, comerciantes e operários especializados, conforme aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Esse perfil explica por que sobrenomes como Gerdau, Renner, Mentz e Trein viraram marcas industriais brasileiras. Das oficinas de sapateiros e ferreiros surgiram as bases do parque industrial gaúcho. Em 1874, a primeira ferrovia do estado conectou a colônia à capital com 33,7 km de trilhos, sendo a quinta linha férrea do Brasil.

O enxaimel da Casa do Imigrante guarda um truque
A famosa Casa do Imigrante, símbolo da arquitetura germânica em São Leopoldo, esconde uma curiosidade. O prédio nasceu em 1788 como construção luso-brasileira da Feitoria do Linho Cânhamo. Só nos anos 1940, durante restauração conduzida pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn, ela ganhou as características enxaimel que vemos hoje, em homenagem aos imigrantes que ali se abrigaram.
A técnica enxaimel ou Fachwerk consiste em estruturas de madeira encaixadas, com vãos preenchidos por taipa, adobe ou tijolo. O imóvel foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) em 1992. Após desabamento parcial em 2019, segue em processo de revitalização pelo programa Iconicidades do governo estadual.
O que visitar na cidade berço da colonização
O centro histórico pode ser percorrido a pé em uma manhã. Os principais pontos concentram dois séculos de presença germânica em poucas quadras:
- Museu Histórico Visconde de São Leopoldo: guarda mais de 16 mil peças, 50 mil fotografias e biblioteca com 25 mil volumes sobre imigração e cultura gaúcha.
- Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição: erguida em 1859 sobre a primeira capela dos imigrantes, é considerada a primeira obra neogótica do estado.
- Igreja do Relógio: templo evangélico luterano com vitrais importados da Alemanha que ainda celebra cultos em alemão.
- Museu do Trem: ocupa a estação ferroviária mais antiga do Rio Grande do Sul, inaugurada em 1874, com locomotivas e vagões expostos ao ar livre.
- Santuário Padre Reus: construído entre 1958 e 1968, abriga o túmulo do padre bávaro em processo de beatificação.
Cuca e eisbein dividem a mesa do café colonial
A cozinha leopoldense traduz a fusão entre tradição germânica e churrasco gaúcho. Os cafés coloniais são a porta de entrada para quem quer experimentar tudo de uma vez:
- Café colonial: cucas, schmier, pães caseiros, linguiças, queijos e tortas servidos em fartura.
- Eisbein: o joelho de porco assado servido com chucrute e purê é prato fixo nos restaurantes do centro.
- Kassler: lombo de porco defumado, herança direta dos colonos, presente em rodízios típicos.
- Linguiças e cucas artesanais: vendidas em padarias e feiras de bairro, mantêm receitas trazidas no século XIX.
Quer conhecer São Leopoldo (RS), o berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul, ao lado de Novo Hamburgo e perto de Porto Alegre? Vai curtir esse vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, onde Tati Marmon mostra a cidade:
Quando ir conhecer São Leopoldo
O clima subtropical úmido garante quatro estações bem definidas. O inverno é a alta temporada por causa da São Leopoldo Fest e das temperaturas ideais para passeios urbanos:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo de São Leopoldo. Condições podem variar.
Conheça a cidade onde o Brasil aprendeu alemão
A cidade onde tudo começou ainda guarda missas em alemão, casarões em estilo enxaimel e uma festa de julho que reúne dezenas de milhares de pessoas. Em São Leopoldo, é possível tocar dois séculos de história em uma caminhada de poucos quarteirões.
Você precisa descer na estação leopoldense, caminhar até o Rio dos Sinos e imaginar aquelas 39 pessoas chegando de barco em 1824, sem saber que estavam fundando o berço de toda a imigração alemã no país.
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