As crises diárias da base de Bolsonaro
O estranho caso do governo que, poupando esforços da oposição, vive a gerar crises contra os principais aliados.
Em fevereiro, Cláudio Dantas compartilhou no Twitter que, de uma forma nonsense, o governo Bolsonaro fazia oposição a si próprio. Foi a deixa para um seguidor pontuar que surgia ali o conceito de “autocrise”.
Após popularização de termos como autoajuda, autodidática e autocrítica, eis que surge a 'autocrise'. https://t.co/SRZomWPpgN
— Neemias Martins (@NeemiasMartins) February 13, 2019
A expressão não era exatamente inédita. Mas o grupo ideológico mais próximo de Jair Bolsonaro faria uso do termo numa recorrência jamais vista.
– Sai autogolpe, entra autocrise
Se havia um mínimo de temor de “autogolpe”, hipótese analisada por Hamilton Mourão ainda em campanha, o receio deu vez ao desconforto de um governo que vive gerando crises contra aliados – poupando esforços da oposição.
Só na última semana, a base do governo Bolsonaro foi diariamente às manchetes em crises inéditas ou requentadas. Trata-se de um desgaste que não faria bem a qualquer gestão.
– Os caroneiros do PSL
Em tom de ironia, Alexandre Frota celebrou no Twitter a possível filiação de José Luiz Datena ao PSL. Sem ironia, Eduardo Bolsonaro disse que o ator só se elegera por causa de Jair Bolsonaro – e que caroneiros do tipo deveriam ser evitados em futuras eleições.
Falou o dep. eleito na carona do Bolsonaro e que só fala mal da direita. Acredite, eu não queria essa função de presidente, relutei muito, mas não podemos fugir da nossa responsabilidade de moralizar o partido. Isso evitará eleição de caroneiros. https://t.co/yKwor1XkDU
— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) May 10, 2019
Na réplica, Frota reclamou que Eduardo precisa “deixar de ser mimado”. Com apoio de Joice Hasselmann, prometeu questionar a escolha do filho de Bolsonaro para a presidência do PSL paulista.
– PSL contra Onyx

Onyx Lorenzoni orientou a bancada do PSL a deixar que o Coaf escapasse das mãos de Sergio Moro. Era uma forma de garantir a aprovação da reforma administrativa proposta logo no início do governo Bolsonaro.
Mas os parlamentares reagiram indignados, exigindo uma reunião com Jair Bolsonaro em pessoa. O presidente, contudo, defendeu a orientação da Casa Civil.
Carla Zambelli chegou a chorar.
– Bolsonaro expõe Moro
No que pode ser entendido como um desagravo a Moro após uma semana difícil, Bolsonaro adiantou que o ministro da Justiça seria o indicado do presidente à primeira vaga que abrisse no STF: “É um compromisso que tenho com ele”.
O próprio Moro reagiu na defensiva, dizendo ter por meta a aprovação do pacote de medidas contra a corrupção, e que a indicação há de ser avaliada por ambos no momento oportuno.
Sergio Moro
Nada disso impediu o bombardeio da oposição, fazendo com que Moro precisasse explicar: “não estabeleci nenhuma condição para aceitar o convite”.
Conforme apurou Renan Ramalho, a sensação em Brasília é de que a indicação era mesmo precoce.
Renan Ramalho
Em podcast exclusivo para os assinantes de O Antagonista+, Renan complementou o raciocínio. O inferno vivido por Moro foi analisado por O Antagonista:
Francamente, é um país de cabeça para baixo.
O Antagonista
– Tabela do IR
Bolsonaro orientou Paulo Guedes a corrigir a tabela de Imposto de Renda pela inflação.
Jair Bolsonaro
Mas a equipe do “posto Ipiranga” se sentiu atropelada pela “orientação” do presidente.
Economista do governo, em off
– Ataques aos militares
O Comentarista já dedicou uma edição à briga entre Olavo de Carvalho e Carlos dos Santos Cruz. Como estratégia, os militares passaram a simplesmente ignorar os ataques da base mais radical do governo Bolsonaro. Ao menos com palavras, pois publicaram uma fotografia que valia mais do que mil.
— General Villas Boas (@Gen_VillasBoas) May 8, 2019
Em podcast exclusivo para o O Antagonista+, Mario Sabino ofereceu uma resposta pontual ao que chamou de “bolsonarismo aloprado“. Na Crusoé, Duda Teixeira assinou uma reportagem que explica como Olavo se encaixa no movimento internacional que traga o governo brasileiro ao populismo mais nacionalista.
– Tsunamis e marolas
Quando a crise com os militares parecia contornada, Bolsonaro causou mais um alvoroço em Brasília.
Jair Bolsonaro
De cara, imaginou-se que o presidente fazia referência a uma eventual derrota da reforma administrativa. Mas Gustavo Alves explicou na Crusoé que havia o risco de a onda se originar no próprio Palácio do Planalto.
Onyx garantia que não havia qualquer tsunami. Mas O Antagonista antevia uma nova crise a atrapalhar a reforma da Previdência.
Claudio Dantas, em primeira mão para os assinantes de O Antagonista+, jogou luz na questão.
Claudio Dantas
– O risco de queda de Santos Cruz
A exoneração de Santos Cruz ganhou força com uma piada que chegara ao conhecimento do presidente.
O Antagonista
Mas Diogo Mainardi apontava que o “erro imperdoável” de Santos Cruz havia sido o veto ao uso criminoso da propaganda estatal pelas milícias do bolsonarismo, conforme registrado ainda em janeiro.
O general Santos Cruz é a maior garantia contra o uso criminoso da propaganda estatal https://t.co/zi7fdynIMB
— diogomainardi (@diogomainardi) January 19, 2019
Quebrando um voto de silêncio, Mourão partiu em defesa de Santos Cruz.
Hamilton Mourão
Claudio Dantas apurou que, por ora, a “turma do deixa disso” venceu, convencendo Bolsonaro que este não seria um momento para tsunamis ou marolinhas.
Claudio Dantas
O tema foi revisitado por Claudio Dantas no podcast exclusivo para os assinantes de O Antagonista+.
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