Lojas de moedas começam a limitar a compra de metais preciosos devido ao excesso de prata e ouro circulando no mercado
Ressaca de Ouro: O que acontece quando todo mundo decide vender o tesouro da família ao mesmo tempo.
Janeiro foi uma festa no mercado de metais preciosos. Fevereiro é a ressaca. Após o ouro ultrapassar US$ 5.300 e a prata atingir quase US$ 120 por onça, as lojas de moedas nos EUA passaram a limitar a compra de ouro e prata porque as refinarias estão saturadas e o capital de giro está no limite.
Por que as lojas de moedas estão limitando a compra de ouro e prata?
Não se trata de uma crise de escassez, mas de um excesso de oferta fora de controle. As lojas de moedas desempenham um papel essencial na circulação de metais físicos: elas compram barras, moedas e sucata de indivíduos, vendem parte desse material e enviam o restante para refinarias, que derretem tudo e produzem novas barras.
O problema é que essa engrenagem emperrou. Com preços recordes, uma avalanche de vendedores correu para trocar metais por dinheiro, e as refinarias não estão dando conta do volume. Com os canais de escoamento entupidos, o capital das lojas fica preso em estoque que oscila violentamente de valor.

Qual foi o gatilho para esse excesso de ouro e prata no mercado?
A disparada dos preços no final de 2025 e início de 2026 acendeu o alerta. Em 22 de janeiro de 2025, a prata era cotada a US$ 31 por onça. Exatamente um ano depois, chegou a US$ 102, uma valorização superior a 200% em doze meses, segundo dados da consultoria Elos Ayta.
O ouro também disparou, subindo de US$ 2.797 para US$ 4.913 na mesma janela. No pico de janeiro de 2026, o metal amarelo bateu US$ 5.300. Com preços assim, até quem tinha joias esquecidas, prataria antiga e moedas herdadas decidiu que era hora de vender.
O que está acontecendo com as refinarias de metais preciosos?
Refinarias nos EUA estão com capacidade esgotada e prazos alongados. Normalmente, uma remessa de sucata de ouro ou prata é processada em 14 dias; agora, o ciclo de beneficiamento se estende por 60 a 90 dias. O prazo de pagamento ao lojista passou de 48 horas para até duas semanas.
A raiz do gargalo está no fechamento de plantas de refino nos últimos anos, como a Republic Metals, que reduziu a capacidade americana de processamento. Há também novos entraves regulatórios: em 2026, os EUA impuseram exigências adicionais de licenciamento para exportação, restringindo ainda mais o escoamento.
Como a volatilidade do mercado afeta essas lojas?
Tim Heuer, gerente da loja University Coin & Jewelry em Madison, Wisconsin, conta que um cliente chegou para vender prata quando a onça estava cotada a US$ 98. Até preencher o cheque, o preço já havia caído US$ 3,50. Movimentos assim consomem a margem da loja em minutos.
O analista de metais preciosos do HSBC, James Steel, resume: “Esses movimentos de preço causaram muito estrago em toda a cadeia”. Para completar o cenário, os bancos hesitam em emprestar para lojas que lidam com um ativo que pode oscilar US$ 700 em uma única semana, paralisando o crédito no setor.
Por que as lojas não podem simplesmente parar de comprar?
As lojas de moedas atuam como prestadoras de serviço local. Muita gente depende delas para trocar metais por dinheiro e pagar impostos, contas médicas ou emergências. Fechar as portas para compra quebraria esse elo de confiança com a comunidade.
Diante do impasse, a saída encontrada foi estabelecer limites diários por pessoa. A medida permite atender mais clientes, manter o fluxo de caixa ativo e evitar que um único vendedor consuma todo o capital disponível da loja de uma só vez. É uma operação delicada: como explicou Tom Spoerl, gerente da Rick’s Olde Gold, “se você fizer isso errado, o capital acaba muito rápido”.
O que a saturação do mercado físico revela sobre os preços?
A contradição entre o excesso de metal físico nas lojas e a alta dos preços nas telas expõe uma desconexão rara do mercado. Enquanto os futuros de prata e ouro disparavam, as lojas de bairro estavam abarrotadas de metal que não conseguiam revender com lucro. A consultoria BMO projeta que o ouro possa atingir US$ 6.350 por onça até o fim de 2026, enquanto o banco Bank of America estima que a prata pode chegar a um intervalo entre US$ 135 e US$ 309.
As previsões ambiciosas, porém, não aliviam a pressão sobre o varejo de metais. Os desafios diários enfrentados por essas lojas incluem:
- Margens reduzidas ou negativas com oscilações bruscas de preço
- Filas de espera de 6 a 8 meses para processar prata nas refinarias
- Linhas de crédito bancário esgotadas pela volatilidade do metal
- Capital de giro imobilizado em estoque de giro lento

Leia também: Seu vizinho construiu um muro de 3 metros que tirou todo o sol da sua casa, o que a lei permite fazer agora
O mercado de metais preciosos é uma bolha prestes a estourar?
Para muitos analistas, a crise das lojas de moedas é um problema de liquidez e logística, não de falta de valor intrínseco. A demanda industrial por prata, puxada por painéis solares e eletrônicos, sustenta um déficit estrutural que deve manter os preços elevados no médio prazo. A própria London Bullion Market Association (LBMA) projeta um preço médio de US$ 79,57 para a prata em 2026, quase o dobro da média de 2025.
A situação atual é uma crise de crescimento: o mercado físico não estava preparado para um volume tão grande de vendas em tão pouco tempo. O CME Group indica que a volatilidade extrema pode persistir ao longo de 2026, mas ressalta que as posições compradas de longo prazo se mantêm estáveis, sugerindo que a pressão é passageira sobre a infraestrutura, não sobre a demanda.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)