Crusoé: Ninguém mais acredita na Justiça — e isso muda tudo
Quando a lei deixa de ser referência comum, o que entra em crise não é apenas o Direito. É a própria ideia de ordem
O Brasil não perdeu apenas o respeito pela lei.
Perdeu algo mais grave: a crença de que ela exista para todos.
Não se trata mais de discutir decisões corretas ou equivocadas. Trata-se de algo anterior: saber se ainda existe um lugar onde a lei fala por todos — e não por alguns.
E quando a lei deixa de ser acreditada, ela deixa de existir como ordem.
Durante muito tempo, a Justiça funcionou não apenas pela força, mas pela confiança. As pessoas obedeciam não só por medo da sanção, mas porque acreditavam que havia um limite — algo que valia independentemente de quem estivesse no poder.
Esse limite está se dissolvendo.
Não é necessário provar que a Justiça falhou em cada caso. Basta que se instale a suspeita de que ela já não é igual para todos. Basta que decisões pareçam imprevisíveis. Basta que a lei oscile conforme o contexto.
A partir daí, o efeito é inevitável: a autoridade deixa de ser reconhecida.
Na linguagem de Jacques Lacan, o que entra em colapso é o Grande Outro — o lugar simbólico da lei, da palavra que vale, da instância que organiza o mundo mesmo quando ninguém está olhando.
Sem esse referencial, não há ordem. Há cálculo.
As pessoas deixam de obedecer porque é certo — e passam a obedecer apenas quando é conveniente. A lei deixa de ser limite e vira instrumento. Cumpre-se quando interessa. Contorna-se quando possível.
E, cada vez mais, ignora-se.
Não se trata de um problema jurídico. Trata-se de um problema estrutural.
Como já advertia Sigmund Freud…
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