“Para Trump, a desordem é mais eficaz”, diz chefe da ONU
Thomas Fletcher compara custo do conflito no Irã com o valor necessário para financiar plano de emergência global
O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Thomas Fletcher, afirmou nesta segunda-feira, 20, que o montante gasto pelos EUA no conflito com o Irã seria suficiente para financiar um plano de emergência capaz de beneficiar 87 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade.
O diplomata britânico fez a declaração durante palestra no centro de estudos Chatham House, em Londres, ao traçar um paralelo entre o custo da guerra e a crise de financiamento humanitário global.
O peso financeiro do conflito
“Para cada dia deste conflito, são gastos US$ 2 bilhões. Minha meta para um plano de prioridade máxima para salvar 87 milhões de vidas é de US$ 23 bilhões”, disse o subsecretário-geral, que classificou a guerra como uma ação “irresponsável”.
O escritório comandado por Fletcher já opera com metade do orçamento original após cortes recentes. O chefe humanitário descreveu a crise de financiamento como “cataclísmica” e alertou que os efeitos econômicos do conflito — como a instabilidade no Estreito de Ormuz e as pressões nas cadeias de abastecimento — devem reduzir ainda mais a disposição de países doadores.
“Sentiremos o impacto durante anos na África Subsaariana e na África Oriental, empurrando muito mais pessoas para a pobreza”, afirmou.
Retórica de guerra e risco de normalização
Fletcher também abordou o teor das declarações feitas pelos lados beligerantes, com atenção à linguagem utilizada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que chegou a ameaçar destruir a civilização iraniana e bombardear infraestrutura de energia elétrica e de abastecimento de água — declarações que juristas classificam como crime de guerra.
“A ideia de que, de repente, é aceitável dizer: ‘Vamos explodir tudo, vamos bombardear vocês até a Idade da Pedra, destruir sua civilização’, normalizar esse tipo de linguagem é realmente perigoso”, declarou Fletcher.
Isso dá mais liberdade a todos os outros aspirantes a autocratas ao redor do mundo para usar esse tipo de linguagem e esse tipo de tática, atacando infraestrutura civil e civis de uma forma que viola completamente o direito internacional.
O subsecretário-geral descreveu as relações com o governo Trump como uma “montanha-russa”, atribuindo parte da instabilidade à pouca experiência de integrantes da atual administração americana com o ambiente político multilateral.
“Para o governo Trump, a desordem é mais eficaz”. A imprevisibilidade, pegar o adversário e o aliado desprevenidos, eles acreditam que isso traz mais resultados”, afirmou Fletcher, que disse ter conseguido convencer alguns funcionários do governo americano de que a ONU não é “apenas um bando de burocratas politicamente corretos, incompetentes, inúteis e exaustos”.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)