Rodolfo Canônico na Crusoé: Políticas de Orbán para a família também deveriam cair?
A lição húngara é que subsídios generosos não bastam quando as necessidades reais das famílias são sobrepostas por interesses eleitorais
Ao final de dezesseis anos, a Hungria virou uma longa página de sua história: o controverso premiê Viktor Orbán foi derrotado nas urnas por Péter Magyar, que obteve uma ampla maioria no parlamento. Para além da geopolítica europeia, a mudança levanta uma questão que deveria ocupar o debate público brasileiro.
Ocorre que a Hungria de Orbán foi um dos poucos países do mundo a transformar a queda de natalidade em prioridade nacional. Trata-se de um desafio que tira o sono de governantes do mundo inteiro: o declínio populacional já compromete sistemas previdenciários, mercados de trabalho e, em cenários extremos, pode reduzir o PIB de um país em até 30%.
De um lado da equação, há o desejável aumento da longevidade. Do outro, porém, uma realidade inconteste: está cada vez mais difícil formar família. E, com uma taxa de fecundidade de 1,57 filho por mulher e a previsão do IBGE de que, já em 2030, o país terá mais idosos do que crianças, o Brasil vai pelo mesmo caminho.
O experimento húngaro
À crise que assola gigantes como a Rússia, a China e toda a Europa, Orbán respondeu com o pacote mais ambicioso do continente.
Empréstimos de cerca de 25 mil dólares para casais jovens, com perdão conforme o número de filhos, subsídios de até 80 mil dólares para compra de imóvel e veículos para famílias com três ou mais crianças. Isenção total de imposto de renda para mães, ampliação massiva de vagas em creches. Dedução fiscal progressiva por filho, com benefício crescente a partir do segundo.
No total, a Hungria chegou a destinar entre 5% e 6% do PIB a essas políticas — um dos maiores investimentos do tipo no planeta. Os resultados iniciais foram expressivos: a taxa de fertilidade subiu de 1,23 em 2011 para 1,61 em 2021.
A conta que não fecha
O problema é que o “milagre demográfico” de Orbán revelou-se, em bom português, um voo de galinha. Desde 2021, a fertilidade despencou para 1,3 em 2025 — abaixo até de vizinhos como Bulgária e Eslováquia, que não fizeram investimentos comparáveis. A meta de 2,1 filhos por mulher até 2030 ficou distante. A população encolheu em 500 mil pessoas desde 2011.
Parte dessa queda…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)