Uma cidade que parou no tempo
A vila colonial mineira de quase mil metros que faz o queijo consagrado pela UNESCO
Nas ladeiras de pedra de uma vila esquecida na Serra do Espinhaço, a quase mil metros de altitude, o tempo passa devagar. Serro, a antiga Vila do Príncipe, guarda dois recordes pioneiros do patrimônio brasileiro e ainda produz o queijo que o mundo decidiu proteger.
Como uma vila de bandeirantes virou o primeiro tombamento do país?
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), criado em 1937, escolheu Serro como o primeiro município brasileiro a ter o conjunto arquitetônico e urbanístico totalmente tombado, em abril de 1938. A decisão foi tomada antes de Ouro Preto ou Diamantina, segundo a Prefeitura de Serro.
A história começou em 1702, quando o bandeirante Antônio Soares Ferreira encontrou ouro nas cabeceiras do rio Jequitinhonha. Os indígenas chamavam a região de Ivituruí, que em tupi significa vento do morro frio, em referência ao nevoeiro denso que invade a serra. Em 1714, o arraial virou Vila do Príncipe e sede de uma das quatro primeiras comarcas da Capitania das Minas Gerais.
Quando o ouro e os diamantes se esgotaram, a cidade ficou isolada dos novos centros econômicos. Foi esse abandono que preservou quase intacto o casario colonial dos séculos XVIII e XIX e garantiu o tombamento federal pioneiro, segundo o IPHAN.

O queijo que ganhou três títulos em 22 anos
O Queijo do Serro acumulou uma trajetória rara. Em 2002, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) registrou o modo de fazer o queijo da região como o primeiro bem cultural imaterial protegido pelo estado de Minas. Em 2008, veio o registro nacional pelo IPHAN.
O reconhecimento mais alto chegou em 4 de dezembro de 2024. Em sessão na capital paraguaia Assunção, a UNESCO incluiu os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Foi a primeira vez que um alimento brasileiro recebeu esse título, segundo o IPHAN.
O queijo é feito a partir do leite cru, com coalho, sal e o pingo, fermento natural composto por bactérias específicas da região. A produção abrange 106 municípios mineiros e gera renda para milhares de famílias da agricultura familiar, segundo dados oficiais do governo de Minas.

Como é viver em uma cidade que parou no tempo?
O ritmo é o de uma cidade pequena onde as ladeiras de pedra ditam o passo. A Praça João Pinheiro, antigo Largo da Cavalhada, funciona como ponto de encontro entre sobrados coloniais e palmeiras imperiais. O comércio do centro atende o cotidiano sem pressa.
A economia local gira em torno da agricultura familiar e da produção de queijo. Boa parte das famílias da zona rural segue fazendo queijo artesanal com técnicas transmitidas há gerações, como detalha a Prefeitura de Serro. Em julho, a Festa de Nossa Senhora do Rosário toma as ruas com congado, danças coloridas e procissões que misturam fé católica e tradição africana.
O que visitar entre igrejas barrocas e cachoeiras
O centro histórico se percorre a pé, mas os atrativos naturais pedem carro ou guia local. Os distritos rurais ficam a cerca de 25 e 30 km da sede e completam qualquer roteiro pela região. Confira algumas atrações imperdíveis:
- Capela de Santa Rita: no ponto mais alto do centro histórico, com escadaria de onde se avista o Pico do Itambé, com 2.052 metros de altitude.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: uma das maiores igrejas barrocas do estado, com pinturas em perspectiva nos forros, tombada pelo IPHAN.
- Museu Casa dos Ottoni: solar do século XVIII com acervo histórico que conta a trajetória de famílias serranas ilustres.
- Milho Verde: distrito tranquilo com vista para o Pico do Itambé e a Cachoeira do Moinho, com poços para banho cercados de mata.
- São Gonçalo do Rio das Pedras: vilarejo de pedra preservado, parte do Caminho dos Diamantes da Estrada Real.
Quem planeja uma viagem completa por esse paraíso mineiro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 1,3 milhão de visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra as belezas, a cultura e o famoso queijo da cidade do Serro, em Minas Gerais:
Quando o clima ajuda cada tipo de passeio?
Serro fica acima de 700 metros de altitude e tem clima ameno o ano inteiro. O verão é chuvoso e pode dificultar o acesso às cachoeiras pelas estradas de terra. O inverno seco firma como a melhor época para trilhas e festas tradicionais.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme altitude e microclima da serra.
Como chegar à cidade do queijo a partir de Belo Horizonte
De Belo Horizonte, são aproximadamente 4 horas de carro pela MG-010, rota cênica que cruza a Serra do Espinhaço, ou pela BR-040 via Curvelo. Boa parte do trajeto interno até os distritos é feito por estradas de terra.
O município fica a cerca de 90 km de Diamantina e faz parte do Circuito dos Diamantes, com roteiros que passam por fazendas de queijo, igrejas barrocas e alambiques de cachaça.
Suba a escadaria de Santa Rita ao fim da tarde
Serro guarda dois títulos pioneiros do Brasil, o primeiro tombamento federal e o primeiro patrimônio cultural imaterial registrado em Minas, e agora carrega também o selo da UNESCO para seu queijo. As ladeiras, as igrejas com forro pintado e o modo de fazer queijo com a mesma técnica de três séculos formam um lugar que recompensa quem chega sem pressa.
Você precisa subir a serra e conhecer o Serro, a vila esquecida pela história que segue produzindo o queijo mais celebrado do país.
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