Bolsonaro contra os democratas de Nova York
O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, comemorou neste sábado (4) o cancelamento da viagem de Jair Bolsonaro à cidade. O episódio mostrou a força de certa esquerda chique e sua conexão com parte do PIB americano.
O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, comemorou neste sábado (4) o cancelamento da viagem de Jair Bolsonaro à cidade. Do partido democrata, ele foi um dos líderes da oposição à decisão da Câmara de Comércio Brasil-EUA de homenagear o presidente.
O cancelamento ocorreu depois de algumas empresas importantes retirarem seu patrocínio ao jantar de gala, marcado para o próximo dia 14. O local do evento também teve de ser mudado: do Museu Americano de História Natural para um hotel Marriott.
O episódio mostrou a força de certa esquerda chique e sua conexão com parte do PIB americano. Entenda.
– O que é o Person of the Year?

Instituído em 1970, o Prêmio “Person of The Year” é entregue a cada ano sempre a duas pessoas, um brasileiro e um americano, cujo trabalho tenha ajudado na aproximação comercial ou cultural entre os dois países. Entre os agraciados mais recentes do lado brasileiro estão Sergio Moro (2018), João Doria (2017) e Armínio Fraga (2016).
Neste ano, do lado americano, o homenageado seria o secretário de Estado, Mike Pompeo.

Em 2015, os homenageados foram os ex-presidentes Bill Clinton e FHC.
Bolsonaro é o primeiro presidente do Brasil a receber o prêmio no exercício do cargo. Mas o “Person of the Year” também foi entregue a figuras de alto escalão dos governos petistas: Luciano Coutinho (2013), Henrique Meirelles (2010) e José Sérgio Gabrielli (2009). Grandes empresários e banqueiros também já receberam a honraria.
– Como o conflito começou?

Em 13 de abril, em entrevista à radio americana WNYC, o prefeito Bill de Blasio chamou Bolsonaro de “ser humano perigoso” e pediu que o Museu de História Natural não sediasse o jantar de gala em sua homenagem. De Blasio também disse se preocupar com o “racismo evidente” e “homofobia” do presidente.
A entrevista foi criticada por Eduardo Bolsonaro e pelo assessor internacional da Presidência, Filipe Martins.
Não há surpresa alguma em ver Bill de Blasio — um sujeito que colaborou com a revolução sandinista, que considera a USSR um exemplo a ser seguido e que faz comícios no monumento dedicado a Gramsci no Bronx — criticando o PR Bolsonaro. Surpresa seria uma toupeira dessas o elogiar.
— Filipe G. Martins (@filgmartin) April 13, 2019
O movimento cultural que ocorre no Brasil ocorre da exata mesma e mesma forma no Chile, Inglaterra, França e, claro, nos EUA. Isso visa a construção de um novo mundo suprimindo as culturas locais. Depois falamos que são GLOBALISTAS e ainda há quem queira fazer chacota conosco. https://t.co/vVzFLLKx9R
— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) April 13, 2019
No dia seguinte, a conta do museu no Twiter disse estar avaliando suas opções. O contrato para sediar o evento foi feito antes de serem informados sobre os homenageados. Finalmente, o museu contou que não sediaria mais o jantar:
Com respeito mútuo pelo trabalho e pelos objetivos de nossas organizações individuais, concordamos em conjunto que o Museu não é o local ideal para o jantar de gala da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Este evento tradicional terá lugar em outro local na data e hora originais.
— American Museum of Natural History (@AMNH) April 15, 2019
O evento foi transferido para o hotel Marriott Marquis. Mas o pior da crise ainda estava por vir.
– Quais patrocinadores saíram?

Em 12 de abril, o senador estadual Brad Hoylman publicou no Twitter sobre Bolsonaro pela primeira vez. Disse que o presidente é “um famoso homofóbico” e que merece desprezo.
Nesta quarta (1º), ele criou um abaixo-assinado online pedindo que o Marriott não sediasse o evento.
Jair Bolsonaro is a notorious homophobe who once said he'd rather his son die than be a gay man.@Marriott wants to host an event honoring him as Man of the Year.
That's unacceptable. Sign on and join me in telling Marriott to #CancelBolsonaro: https://t.co/I3bI3IgAIh
— Senator Brad Hoylman (@bradhoylman) May 1, 2019
No momento em que este post foi escrito, a petição já tinha 65 000 assinaturas.
Três patrocinadores anunciaram retirada de apoio ao evento. São eles: a empresa aérea Delta, o jornal Financial Times e a consultoria Bain & Company. Já grandes bancos se mantiveram firmes: Credit Suisse, JPMorgan, Citigroup, HSBC, Bank of America e Morgan Stanley. Estes continuam como patrocinadores.
Finalmente, nesta sexta (3), o governo informou que Bolsonaro cancelou a viagem.
– Qual é o pano de fundo político?

Alguns elementos partidários precisam ser levados em conta neste episódio.
O homenageado do lado americano seria o chefe da diplomacia do governo Trump, Mike Pompeo. Além disso, em sua visita a Washington em março, Bolsonaro disse acreditar piamente na reeleição do atual presidente em 2020.
Em novembro de 2018, Eduardo Bolsonaro – hoje uma espécie de chanceler paralelo – vestiu um boné com os dizeres “Trump 2020” em visita aos Estados Unidos.
O debate a respeito do “Person of the Year”, portanto, mostra as consequências de se liderar uma política externa com fortes tons partidários. E que o outro lado também pode jogar esse jogo – especialmente em casa. Fica ainda mais fácil para a esquerda chique de Nova York quando ela tem boas relações com setores do PIB americano.
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