Minuta ligada ao TCU foi salva por Vorcaro no celular
Documento em Word tratava de interromper decisões do BC sobre o Banco Master
Um arquivo de Word encontrado no celular do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, abriu nova frente de questionamentos sobre a atuação do banqueiro durante a crise que resultou na liquidação extrajudicial da instituição. A informação foi revelada pelo jornal O Globo a partir de documentos compartilhados com a CPI do INSS. A minuta intitulada “TCU_mora_excessiva” não tem assinatura nem identificação de autoria. O conteúdo previa que o Tribunal de Contas da União determinasse ao Banco Central a suspensão de toda e qualquer decisão relacionada ao Banco Master, além de fixar prazo para ouvir técnicos da autoridade monetária.
Segundo a publicação, os metadados indicam que duas versões do arquivo foram criadas no mesmo dia, em 29 de agosto de 2025, em horários distintos. O registro coincide com a fase final da análise do Banco Central sobre a operação entre o Master e o BRB. Dias depois, a autoridade monetária vetou o negócio. O teor do documento teria destacado semelhança com iniciativas adotadas pelo governo do Distrito Federal após a decisão do Banco Central. O DF acionou o TCU com pedido para suspender os efeitos do veto. A redação apresentada no requerimento repete trechos e estrutura próximos ao conteúdo da minuta encontrada no celular de Vorcaro.
Auditoria do próprio TCU criticou esse tipo de movimentação. Em parecer técnico, auditores apontaram tentativa de uso da corte de contas como instância para reverter decisão técnica do Banco Central. O documento destaca possível afastamento dos princípios constitucionais da administração pública.
“Essa insistência em utilizar, de forma oblíqua, a via de controle externo […] revela potencial descolamento entre a gestão da coisa pública e os princípios constitucionais da administração pública”, registraram os técnicos, segundo o jornal.
O contexto inclui alertas anteriores sobre o Banco Master. Ao longo do primeiro semestre de 2025, o Banco Central identificou “graves irregularidades” nas carteiras de crédito cedidas pelo banco ao BRB. Segundo auditoria do TCU, havia indícios de operações sem comprovação financeira e uso de artifícios contábeis para ocultar a real situação da instituição.
Essas carteiras haviam sido negociadas em operação superior a R$ 12 bilhões. Em meados de agosto, integrantes do Ministério Público Federal no Distrito Federal alertaram representantes do governo local e do BRB sobre suspeitas envolvendo esses ativos. Os procuradores recomendaram que o Banco Central não aprovasse o negócio e que o governo aguardasse a comprovação da “fidedignidade e lisura” dos créditos.
Ainda de acordo com o Globo, paralelamente, o Banco Central já monitorava dificuldades de liquidez do Master desde 2024. Alertas sobre possível adoção de medidas prudenciais foram reiterados ao longo de 2025. Em setembro, após vetar a operação com o BRB, a autoridade monetária exigiu a recomposição imediata da liquidez do banco, com prazo inicial de dois dias úteis.
Mesmo diante desses sinais, houve movimentações para tentar reverter a decisão do Banco Central por meio do TCU. Auditoria da corte de contas apontou que a tentativa de acionar o tribunal como instância revisora de decisão técnica regulatória expôs o BRB a riscos bilionários, diante de ativos considerados de existência duvidosa ou potencialmente sobrevalorizados. Não há confirmação sobre a origem da minuta nem indicação de envio a autoridades. O documento não chegou a se converter em decisão do TCU.
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