A ciência descobriu e revelou o que realmente são os sonhos
Como os sonhos funcionam, por que parecem tão reais e como a tecnologia começa a explorar formas de interagir com o cérebro durante o sono
Sonhar com uma prova para a qual ninguém estudou, a avó vestida de bombeiro brigando com um jacaré e, de repente, cair dentro de um carro do Mario Kart parece roteiro de desenho animado, mas é só mais uma noite comum no cérebro humano. A ciência tenta entender há séculos o que são os sonhos, por que eles existem e até se é possível influenciá-los com tecnologia, eletrodos e dados, aproximando a realidade de um “Inception” científico.
O que a ciência moderna entende sobre os sonhos
O ser humano passa, em média, um terço da vida dormindo, mas sonha apenas cerca de duas horas por noite, em blocos de 5 a 20 minutos. Ao longo da vida, isso soma aproximadamente seis anos dedicados só a sonhar, mesmo quando a pessoa acorda com a impressão de “não ter sonhado nada”.
Esse fenômeno é estudado pela onirologia, área que investiga relações entre sonhos, cérebro, memória e saúde mental. Com técnicas como eletroencefalograma e ressonância magnética, surgem modelos que apontam funções ligadas à consolidação de memórias, regulação emocional e criatividade, embora ainda não haja consenso definitivo.

Como diferentes culturas explicam os sonhos
Bem antes da neurociência, povos da Antiguidade viam os sonhos como mensagens sobrenaturais. Sumérios e egípcios acreditavam que deuses se comunicavam durante o sono, influenciando decisões políticas e religiosas importantes, como guerras ou reconstruções de templos.
Religiões e tradições espirituais também interpretam os sonhos como estados especiais da alma ou canais com o divino. Textos hindus descrevem o sonho como um estado intermediário de consciência, enquanto judaísmo antigo e islamismo distinguem sonhos bons, malignos ou mundanos, associados a Deus, espíritos negativos ou preocupações cotidianas.
Quais funções os sonhos podem desempenhar para a mente
A psicologia e a psicanálise sugerem que os sonhos organizam conteúdos mentais e emoções. No século XIX, W. Robert propôs a ideia de “faxina mental”, em que o cérebro descartaria impressões sensoriais irrelevantes e reforçaria lembranças importantes. Freud, por outro lado, via os sonhos como realização disfarçada de desejos reprimidos.
O psicólogo Calvin Hall analisou cerca de 50 mil relatos e identificou padrões emocionais recorrentes em diferentes culturas. Esses dados indicam que os sonhos refletem conflitos, medos e expectativas comuns da experiência humana, como mostram as emoções mais relatadas:

Como o cérebro sonha durante o sono REM e fora dele
Por muito tempo se acreditou que os sonhos ocorriam apenas no sono REM, fase em que os olhos se movem rapidamente e os músculos ficam quase paralisados. Hoje se sabe que sonhamos também fora do REM, embora com características diferentes de narrativa e intensidade.
Em geral, sonhos em sono REM tendem a ser mais longos, estranhos e surreais, enquanto os de outras fases são curtos e ligados ao cotidiano. Pesquisas sugerem que o cérebro, ao sonhar, estaria tanto fortalecendo conexões de memórias recentes quanto “limpando” traços antigos e irrelevantes, o que explicaria enredos caóticos e aparentemente sem lógica.
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Até onde é possível influenciar e dialogar com os sonhos
Estímulos externos conseguem modular, em parte, o conteúdo dos sonhos. Experimentos com odores agradáveis e desagradáveis mostraram aumento de sonhos positivos ou incômodos, respectivamente. Métodos de incubação de sonhos, como o de Deirdre Barrett, indicam que focar intensamente em um problema antes de dormir pode levá-lo ao sonho e, às vezes, gerar soluções criativas.
Com o avanço tecnológico, dispositivos como o Dormio, do MIT, usam rastreadores de sono e sugestões auditivas para direcionar temas oníricos. Em 2021, grupos de pesquisa em vários países conseguiram, de forma limitada, trocar sinais simples com pessoas em sono REM, por meio de movimentos oculares e dos dedos, abrindo caminho para futuras formas de comunicação com o mundo dos sonhos.
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