Irã corta internet e ministro afirma: “Sou a voz dos iranianos”
Bloqueio vigente há 19 dias afeta 99% dos iranianos e criminaliza alternativas de conexão; ministro defendeu a medida em entrevista via Zoom
A ditadura iraniana mantém um bloqueio de internet de abrangência quase total desde o início dos ataques aéreos conduzidos por Estados Unidos e Israel ao território do país. Grupos especializados no monitoramento de censura digital confirmam que a maioria da população, estimada em 92 milhões de pessoas, permanece sem acesso à rede mundial.
A dimensão do corte foi quantificada por Doug Madory, diretor de análise de internet da Kentik, empresa que mede o desempenho de redes globais: “Com base nos níveis de tráfego, eu estimaria que cerca de 99% dos iranianos não têm acesso regular à internet”. O dado ilustra a escala do isolamento imposto pelo regime desde o acirramento do conflito.
Nas duas primeiras semanas de guerra, serviços como aplicativos bancários e de transporte continuaram operando normalmente. A partir do 15º dia, porém, parte dessas plataformas passou a registrar interrupções. Um “superaplicativo” aprovado pelo regime, com funções similares ao WeChat chinês, ficou temporariamente fora do ar durante o fim de semana.
Mercado negro de VPNs e risco de prisão
Diante do bloqueio, parte da população recorreu a redes privadas virtuais (VPNs). O recurso, no entanto, está longe de ser acessível ou seguro. Vendedores anunciam configurações em canais do Telegram e em aplicativos domésticos por valores que vão de 300 mil a 1,5 milhão de tomans por gigabyte de dados, quantia equivalente ao gasto alimentar de uma família média por vários dias.
Um especialista em tecnologia da informação que atua no Irã, identificado apenas como Eman a pedido próprio, por temer represálias, relatou que o mercado clandestino de VPNs expandiu desde o início do bloqueio. A eficácia dessas ferramentas, porém, é instável: um endereço IP identificado pode ser bloqueado em poucas horas, e o funcionamento varia conforme o modelo do celular, o bairro e até o horário do dia.
Amir Rashidi, especialista em cibersegurança do grupo de direitos digitais Miaan, apontou os mecanismos por trás das falhas: “Esses tipos de interrupções podem resultar de mudanças no roteamento, da implementação de políticas de filtragem mais rigorosas ou de esforços para centralizar o controle do tráfego”, disse. “Mas, na prática, essas medidas frequentemente levam a falhas em cascata que afetam até mesmo serviços domésticos”.
Isolamento e contradição
O bloqueio vai além do acesso à internet. Chamadas telefônicas internacionais recebidas no Irã também foram cortadas, dificultando o contato entre quem está no país e familiares no exterior. Realizar ligações para fora do Irã tornou-se financeiramente inviável para boa parte da população.
Uma moradora de Teerã, que preferiu não se identificar, relatou que a maioria das pessoas sequer conseguia visualizar os alertas de evacuação divulgados online por EUA e Israel — e, portanto, não tinha uma leitura precisa do andamento do conflito nem das áreas sob ataque.
Fatemeh Shams, poeta iraniana radicada em Filadélfia, observou que o fluxo de mensagens de contatos dentro do Irã reduziu drasticamente já no terceiro dia de guerra: “As pessoas comuns não conseguem documentar o que está acontecendo com elas”, disse por telefone. “Os iranianos estão enfrentando duas guerras: uma externa e outra interna contra o regime, por meio do cerco informacional”.
O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, defendeu o apagão em entrevista à CBS News realizada no domingo. Segundo ele, a internet foi desligada “por razões de segurança” e “em qualquer país, medidas urgentes são tomadas em tempos de guerra”.
A entrevista foi concedida via Zoom — plataforma inacessível para a esmagadora maioria dos iranianos —, o que levou a jornalista a apontar a contradição. “Sou a voz dos iranianos”, respondeu Araghchi, “e tenho que defender seus direitos”.
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Comentários (1)
A voz desse Sr é a voz da ditadura, q perseguiu e tirou a vida de 04 iranianos q participaram das manifestações! A voz dos 40.000 iranianos assassinados durante as manifestações é a única q deve ser ouvida e nunca esquecida...