Fungo descoberto na Amazônia é capaz de “comer plástico” no escuro e intriga cientistas
Pesquisas com o fungo Pestalotiopsis microspora mostram potencial para degradar poliuretano, embora o uso em larga escala ainda esteja distante
A descoberta de um fungo capaz de degradar plástico em condições extremas, como o Pestalotiopsis microspora, estudado por alunos da Universidade Yale após expedição à Amazônia equatoriana, abriu novas perspectivas para a biodegradação de poliuretano em ambientes inclusive anaeróbicos, sugerindo aplicações futuras em tecnologias de biorremediação e manejo de resíduos.
O que é o fungo Pestalotiopsis microspora e onde foi encontrado?
O Pestalotiopsis microspora é um fungo endofítico que vive dentro de tecidos vegetais sem causar danos aparentes às plantas hospedeiras. Amostras foram coletadas no Parque Nacional Yasuní, na Amazônia do Equador, durante um curso de expedição científica promovido pela Universidade Yale.
No laboratório, o fungo foi isolado e testado em meios contendo poliuretano como única fonte de carbono. Observou-se que ele não só sobrevivia, como também crescia sobre o plástico, sinalizando um potencial inusitado para degradação desse polímero em condições controladas.
Como o fungo degrada o poliuretano em condições normais e sem oxigênio?
Os experimentos indicaram que o fungo produz enzimas, como uma serina hidrolase, capazes de quebrar ligações de éster do poliuretano do tipo poliéster. Assim, o material é fragmentado em moléculas menores, utilizadas como fonte de energia e carbono pelo metabolismo fúngico.
Um diferencial é sua capacidade de atuar em ambientes anaeróbicos, semelhantes a camadas profundas de aterros sanitários. Em semanas, observam-se perda de massa, alterações na superfície e colonização do poliuretano, embora a taxa de degradação varie com espessura, tipo de polímero, umidade e temperatura.
Cientistas descobriram um fungo na Amazônia chamado "Pestalotiopsis microspora" que literalmente se alimenta de plástico.
— Arquivo Curioso (@arquivocurioso) March 17, 2026
Ele não é um fungo comum. Ele consegue sobreviver exclusivamente de poliuretano, um dos tipos de plástico mais comuns (e mais persistentes) — e faz isso… pic.twitter.com/3vojcymD1e
Quais são os limites e desafios para uso em larga escala?
Apesar do interesse, o uso desse fungo ainda está distante de aplicações industriais. Os ensaios foram feitos em laboratório, com pequenas quantidades de plástico e condições otimizadas, exigindo desenvolvimento de biorreatores, avaliação de custos e protocolos de segurança ambiental.
Além disso, o Pestalotiopsis microspora atua principalmente em poliuretano de base poliéster, não degradando plásticos comuns como PET, polietileno ou polipropileno. Desde 2011, a descoberta estimulou pesquisas com outros microrganismos e enzimas, mas a aplicação ainda é complementar às formas tradicionais de reciclagem.
Quais são as possíveis aplicações em tratamento de resíduos plásticos?
Pesquisadores discutem formas controladas de empregar o fungo ou suas enzimas em sistemas fechados. A ideia é reduzir riscos ecológicos e integrar essa biotecnologia a fluxos de tratamento de resíduos já existentes, especialmente para plásticos de difícil reciclagem.
Nesse contexto, algumas aplicações potenciais em desenvolvimento incluem:
Fungos e consórcios microbianos
Uso de fungos ou comunidades microbianas em biorreatores para degradar resíduos de poliuretano previamente triturados.
Enzimas isoladas
Aplicação de enzimas específicas para quebrar polímeros de poliuretano em processos de reciclagem química ou biológica.
Espumas e isolantes
Processos industriais voltados ao tratamento de espumas e materiais isolantes de poliuretano em estações de resíduos.
Integração tecnológica
Combinação com outras tecnologias de reciclagem para diminuir o volume de resíduos enviados a aterros sanitários.
Como o fungo que degrada poliuretano influencia o debate sobre resíduos?
A descoberta reforça que a natureza abriga soluções bioquímicas para problemas modernos, mas não substitui políticas de redução de consumo, redesign de produtos e ampliação da reciclagem mecânica e química. O fungo é visto como ferramenta complementar, não como solução única para a crise dos plásticos.
Até 2026, o Pestalotiopsis microspora continua referência em biodegradação de poliuretano em condições anaeróbicas. A pesquisa segue focada em otimizar eficiência, entender melhor as enzimas envolvidas e definir formas seguras de integrar essa tecnologia a sistemas de gestão de resíduos.
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