Márcio Coimbra na Crusoé: Entre a soja de Pequim e o silício de Taipei
Próximo presidente brasileiro terá de se equilibrar para garantir importação de chips e exportação de commodities
O cenário geopolítico de 2026 situa o Brasil em uma encruzilhada estratégica: enquanto o país ruma para as eleições de outubro, a estabilidade do Estreito de Taiwan deixa de ser um detalhe cartográfico para se tornar um pilar da saúde econômica nacional.
Se a distância entre os dois pontos é vasta no mapa, a interdependência é absoluta na prática, transformando tensões no Pacífico em variáveis diretas da política interna brasileira.
O resultado das urnas, portanto, definirá a longevidade de uma coreografia diplomática complexa, na qual o próximo governo deverá equilibrar a histórica neutralidade do Itamaraty, a voracidade exportadora do agronegócio e a dependência vital da indústria nacional pelos semicondutores taiwaneses.
“Uma só China“
Desde a retomada das relações com a República Popular da China na década de 1970, o Brasil tem mantido uma adesão inabalável ao princípio de “Uma só China“.
Sob o atual governo Lula, essa posição foi reafirmada com vigor.
Para a atual gestão e seus possíveis sucessores de esquerda, a questão de Taiwan é vista estritamente como um “assunto interno” chinês, longe da ambiguidade estratégica exercida pelos EUA e por diversas outras potências mundiais.
No campo da oposição, nomes como Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior enfrentam um dilema.
Se, por um lado, há uma afinidade ideológica natural com as democracias liberais e com o alinhamento aos Estados Unidos, por outro, o agronegócio brasileiro — base de apoio vital da direita — é profundamente dependente da China.
Embora um governo de direita possa adotar uma retórica mais assertiva em defesa da democracia em Taiwan, o “pragmatismo do PIB” tende a prevalecer.
Uma ruptura ou um apoio explícito à independência da ilha poderia desencadear retaliações comerciais imediatas de Pequim, que hoje absorve cerca de 37% das exportações agrícolas brasileiras.
Assim, a tendência para 2027, mesmo sob nova direção, seria a manutenção da neutralidade, deixando aberto um canal seguro e pragmático com Taipei.
Dupla vulnerabilidade
A política externa brasileira para o Estreito de Taiwan é moldada por uma vulnerabilidade dual que transcende a diplomacia…
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