Página perdida do manuscrito de Arquimedes é encontrada
O redescobrimento de uma página perdida do Palimpsesto de Arquimedes em um museu francês chamou a atenção de historiadores
O redescobrimento de uma página perdida do Palimpsesto de Arquimedes em um museu francês chamou a atenção de historiadores, matemáticos e especialistas em manuscritos.
A folha, hoje no Musée des Beaux-Arts de Blois, ajuda a completar um enigmático códice medieval que preserva textos fundamentais do cientista grego.
O que é o Palimpsesto de Arquimedes e por que essa página importa?
O Palimpsesto de Arquimedes é um manuscrito em pergaminho do século X que reúne cópias de tratados do matemático siracusano. Ele é um palimpsesto: o texto original foi raspado ou lavado, e novo conteúdo religioso em grego foi escrito por cima, embora traços da escrita antiga permaneçam visíveis.
A folha reencontrada contém parte do tratado Sobre a Esfera e o Cilindro, Livro I, proposições 39 a 41. Mesmo após raspagens, reaproveitamento litúrgico e intervenções artísticas, diagramas e linhas do texto de Arquimedes ainda podem ser identificados a olho nu e por comparação com registros fotográficos antigos.
The Archimedes Palimpsest.
— Dreams N Science (@dreamsNscience) December 4, 2024
Following the sack of Constantinople in 1204, the only surviving original Greek edition of Archimedes work On Floating Bodies, was taken to an isolated Greek monastery in Palestine
The complex manuscript was not appreciated at this remote monastery… pic.twitter.com/bHDuTxTkql
Como essa folha foi identificada e relacionada ao códice principal?
Um pesquisador do CNRS reconheceu a página em Blois ao compará-la com fotografias tiradas em 1910, hoje na Biblioteca Real da Dinamarca. As imagens mostram o mesmo arranjo de diagramas, linhas de texto e danos físicos no pergaminho.
Em um lado, o texto litúrgico em grego encobre parcialmente figuras geométricas; no verso, uma pintura moderna do profeta Daniel entre leões cobre quase todo o texto antigo. Apesar disso, marcas residuais, alinhamento dos diagramas e coincidências paleográficas confirmam a ligação com o códice hoje em Baltimore.
Qual foi o percurso histórico do Palimpsesto de Arquimedes?
O códice foi copiado por volta de 950 d.C. em um centro erudito bizantino, provavelmente em Constantinopla, a partir de compilações mais antigas. Durante as Cruzadas, por volta de 1204, ele foi levado para um mosteiro ortodoxo na Palestina e, depois, palimpsestado com textos litúrgicos.
No fim do século XIX, estudiosos ligados à igreja grega ainda consultavam o manuscrito em Istambul, permitindo ao filólogo Johan Heiberg fotografá-lo em 1906.
Por volta de 1922, uma folha se separou do conjunto e entrou em uma coleção privada francesa, sendo incorporada décadas depois ao museu de Blois sem identificação precisa de sua origem.
Quais textos de Arquimedes o palimpsesto preserva hoje?
O palimpsesto contém a única cópia conhecida de obras cruciais, bem como versões importantes de textos já conhecidos por outras vias. Entre os principais tratados preservados estão estudos de mecânica, geometria e hidrostática.
- Método dos Teoremas Mecânicos, com raciocínios baseados em equilíbrio de pesos.
- Ostomachion, ligado a um quebra-cabeça geométrico de decomposição de figuras.
- Única versão grega remanescente de Sobre os Corpos Flutuantes.
- Trechos de Sobre a Esfera e o Cilindro, ampliados agora pela folha de Blois.
Lost Page From the Archimedes Palimpsest Discovered in France
— History Content (@HistContent) March 12, 2026
A lost page from the Archimedes Palimpsest has been identified in Blois, France, containing part of On the Sphere and the Cylinder. pic.twitter.com/RP9kNH3rWX
Como tecnologia e disputas legais influenciam o estudo do palimpsesto?
Para ler o que está sob orações e imagens, pesquisadores planejam usar imageamento multiespectral e fluorescência de raios X por síncrotron. Essa combinação permite separar tintas de épocas distintas, realçar traços apagados e reconstruir letras e diagramas com apoio de processamento digital.
Em 1998, o códice principal foi leiloado em Nova York após autorização francesa, em meio a contestação da igreja grega. Adquirido por um investidor identificado como “Mr. B.”, foi confiado ao Museu de Arte Walters, em Baltimore, para restauração.
A integração da folha de Blois a esse corpus mostra como museus regionais, coleções privadas e acordos internacionais continuam a moldar o destino de manuscritos antigos.
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