Energia mais barata virou negócio, e São Paulo ainda não percebeu
Maioria das pessoas acredita que só existe um caminho: pagar a conta da concessionária e torcer para que não venha mais cara no próximo mês
A conta de luz virou um dos impostos mais silenciosos da vida urbana. Ela chega todo mês, aumenta todo ano e quase ninguém questiona por quê.
Em São Paulo, uma cidade que concentra milhões de apartamentos, condomínios e pequenos negócios, o debate sobre energia continua preso ao modelo antigo. A maioria das pessoas acredita que só existe um caminho: pagar a conta da concessionária e torcer para que não venha mais cara no próximo mês.
Mas esse modelo já começou a mudar.
Hoje existem três caminhos possíveis para consumir energia no Brasil: geração solar própria, energia solar por assinatura e o chamado mercado livre de energia. O curioso é que todos já estão disponíveis para paulistanos, mas poucos sabem como funcionam.
O primeiro modelo é o mais conhecido: instalar placas solares.
Casas e empresas instalam painéis no telhado que transformam luz solar em energia elétrica. Durante o dia, a energia produzida abastece o imóvel. Quando sobra produção, essa energia é enviada para a rede elétrica e vira crédito na conta de luz.
Esses créditos podem ser usados à noite ou em meses seguintes.
O problema é que esse modelo tem um limite urbano claro. Em uma cidade vertical como São Paulo, onde milhões de pessoas vivem em apartamentos, simplesmente não existe telhado suficiente para todo mundo instalar placas.
Foi exatamente dessa limitação que nasceu o segundo modelo: a energia solar por assinatura.
Funciona de maneira parecida com um streaming, mas de energia.
Empresas constroem grandes fazendas solares no interior do estado. A energia gerada nessas usinas entra na rede elétrica e se transforma em créditos. Esses créditos são então distribuídos para consumidores que assinam cotas da usina.
Na prática, o consumidor continua recebendo a conta da concessionária, mas parte da energia é abatida com os créditos solares.
O resultado costuma ser um desconto de aproximadamente 10 a 20 por cento na conta de luz, sem precisar instalar nada.
Para moradores de apartamento e condomínios, esse modelo começou a se tornar especialmente atraente.
O terceiro modelo é o mais sofisticado e, até pouco tempo atrás, era restrito a grandes indústrias: o mercado livre de energia.
Nesse sistema, o consumidor não compra energia da concessionária. Ele compra diretamente de geradoras ou comercializadoras.
A rede elétrica continua sendo usada para transportar a energia, mas o preço é negociado em contrato. Dependendo do volume de consumo, o desconto pode ser significativo.
Empresas de médio porte, shoppings, hospitais e redes de supermercados já operam nesse modelo.
Agora o governo federal e o setor elétrico discutem ampliar esse acesso para consumidores menores, o que pode abrir um novo capítulo no mercado energético brasileiro.
Para São Paulo, a mudança tem implicações evidentes.
A cidade tem mais de 30 mil condomínios e milhões de unidades residenciais. Energia elétrica é uma das maiores despesas fixas de edifícios, especialmente quando se considera elevadores, iluminação, bombas e portarias.
Mesmo assim, a discussão sobre alternativas energéticas ainda está longe das assembleias condominiais.
Enquanto isso, empresas de energia solar, comercializadoras e novos intermediários energéticos avançam rapidamente para ocupar esse espaço.
O paradoxo é evidente.
São Paulo concentra dinheiro, tecnologia e consumo. Mas quando o assunto é energia, a cidade ainda se comporta como se estivesse presa ao modelo do século passado.
A conta continua chegando todo mês. A diferença é que agora existem opções.
E ignorá-las pode ser a escolha mais cara.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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