Guerra expõe fragilidade do Brasil na cadeia de insumos
Conflito entre EUA, Israel e Irã agrava dependência brasileira de insumos farmacêuticos importados e pressiona custos logísticos do setor
O conflito militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã colocou em evidência uma vulnerabilidade estrutural da indústria farmacêutica brasileira: o país produz apenas 5% dos insumos ativos que utiliza na fabricação de medicamentos. O restante vem da Ásia, por rotas que atravessam o Oriente Médio. China e Índia respondem por 70% do volume.
A interrupção ou o encarecimento dessas rotas preocupa fabricantes e distribuidores. Associações do setor ouvidas pela Folha apontam que o principal hub aéreo utilizado para o transporte de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) era a Arábia Saudita.
Com a inviabilização desse corredor, as alternativas disponíveis passam pela Rússia – país que também enfrenta restrições logísticas em razão da guerra com a Ucrânia – ou pelo Pacífico, opção mais longa e onerosa.
Dubai, centro de distribuição relevante para o setor, especialmente para produtos que exigem refrigeração, também sofreu impactos. Ataques com drones atribuídos ao Irã atingiram os Emirados Árabes após a morte do líder supremo Ali Khamenei, o que afetou conexões de exportadores indianos com destinos na Europa e nas Américas.
Custos sobem, mas remédios ainda chegam às prateleiras
Estimativas internas da Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos) indicam aumento de 20% a 25% nos custos de logística. Segundo Nelson Mussolini, presidente da entidade, os prejuízos devem ser absorvidos pela indústria, uma vez que os preços dos medicamentos são regulados pela Cmed (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) e não podem ser repassados ao consumidor de forma livre.
Outro fator que pesa sobre o setor é a retração das seguradoras. Companhias de seguro têm se recusado a emitir apólices para cargas em rotas afetadas pelo conflito, o que transfere o risco de eventuais perdas para as próprias empresas do setor farmacêutico. O Irã tem ameaçado embarcações na região como forma de pressão sobre seus adversários.
Norberto Prestes, presidente da Abiquifi (Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos), reconhece que os efeitos já são perceptíveis: “O que a gente já sabe é que o custo de logística aumentou, o tempo [também aumentou], o seguro ficou muito caro para todo mundo, então vai refletir para a gente também”.
No varejo, o impacto ainda não chegou. A Abafarma (Associação dos Distribuidores Farmacêuticos) informou que as operações seguem dentro da normalidade. Redes de medicina diagnóstica, como Fleury e DMS, também relataram funcionamento sem intercorrências.
Governo reconhece dependência e aposta em produção nacional
O Ministério da Saúde afirmou, em nota, não haver risco de falta de remédios ou insumos hospitalares. A pasta reconhece, porém, que a dependência externa em um setor considerado estratégico expõe o Brasil a movimentos geopolíticos fora de seu controle.
Em visita a uma unidade fabril em Valinhos (SP), no dia 3 de março, o ministro Alexandre Padilha sinalizou preocupação com alta de preços. No mesmo dia, em evento na USP, afirmou que o Brasil precisa ampliar a produção interna e reduzir a subordinação à cadeia global de fornecimento.
O governo cita como avanços recentes a retomada da produção nacional de insulina, interrompida por duas décadas, e a formalização de 31 parcerias de transferência de tecnologia nesta gestão, com investimento estimado em R$ 5 bilhões anuais na indústria da saúde. A pressão sobre o setor, no entanto, não é nova: já vinha se acumulando desde o anúncio de tarifas comerciais pelo governo de Donald Trump.
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