A cidade da morte na Índia que queima mais de 500 corpos por dia
Conheça os ghats do Ganges e os rituais que transformam a morte em libertação espiritual em uma das cidades mais antigas da Índia
Existe uma cidade na Índia onde a morte não é um tabu, mas parte da rotina. Em Varanasi, às margens do rio Ganges, corpos são cremados dia e noite, famílias viajam quilômetros para viverem ali seus últimos dias e monges cobrem o corpo com cinzas humanas em busca de libertação espiritual, em um cenário que mistura tradição milenar, devoção e vida urbana caótica.
Por que tantas pessoas desejam morrer em Varanasi
Para milhões de hinduístas, Varanasi não é a “cidade da morte”, mas a cidade da libertação espiritual. Acredita-se que quem morre ali e tem as cinzas lançadas no Ganges escapa do ciclo de renascimentos, o samsara, e alcança o moksha, estado final de paz e liberdade.
Com mais de 3.000 anos de história, a cidade combina templos antigos, ruelas estreitas e construções preservadas com o caos urbano moderno. Buzinas, vendedores, turistas e peregrinos dividem o espaço com famílias em despedida, criando um cotidiano onde vida e morte se misturam o tempo todo.

Como é caminhar pela cidade da morte na Índia
Andar por Varanasi é uma experiência sensorial intensa, marcada por cheiros, sons e imagens contrastantes. Em poucas quadras surgem mercados cheios, panelas no meio da rua, templos escondidos em portas minúsculas e jovens conectados ao celular, lado a lado com monges e devotos.
Ao se aproximar do rio Ganges, as ruelas dão lugar aos grandes degraus de pedra dos ghats. Ali, moradores, turistas e peregrinos se reúnem para observar o rio, rezar ou apenas contemplar a deusa Ganga, considerada capaz de purificar pecados e aliviar o karma de quem toca suas águas.

Por que o rio Ganges é sagrado para os hinduístas
No hinduísmo, o Ganges é visto como uma deusa viva, não apenas como um rio. Tomar banho em suas águas, em vida, é entendido como um ato de limpeza espiritual, que reduz o peso de erros passados e aproxima a pessoa da salvação.
Ao longo dos ghats, pequenos templos, altares e sacerdotes realizam pujas, cerimônias em honra à deusa. Para muitos fiéis, qualquer objeto ofertado ao rio funciona como um canal direto com o divino, e isso ajuda a entender o papel central do Ganges na prática religiosa indiana.
Quem são os sadhus, agoris e a casta que vive da cremação
Varanasi abriga figuras religiosas que se tornaram ícones da espiritualidade local. Entre elas estão os sadhus, ascetas que renunciam família, trabalho e bens para se dedicar totalmente ao caminho espiritual, quase sempre vestidos de laranja e sustentados por doações.
Há também os agoris, ou nagas, um grupo mais radical que se cobre com cinzas humanas e busca superar o medo da morte por meio do convívio direto com ela. Em outro extremo, a casta Dom, muitas vezes classificada como dalit, é responsável há séculos por todos os aspectos práticos das cremações.
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Como funcionam as cremações 24 horas em Varanasi
Nos ghats de cremação a céu aberto, as fogueiras funcionam dia e noite, em um fluxo contínuo que pode chegar a centenas de corpos por dia. As famílias trazem o corpo, escolhem a madeira de acordo com seu orçamento e acompanham em silêncio o último ritual antes do lançamento das cinzas no Ganges.
Esse sistema envolve uma organização complexa e tradicional, mantida sobretudo pela casta Dom, que garante que o fogo nunca se apague. A rotina inclui desde o transporte dos corpos pelas vielas da cidade até o controle cuidadoso da quantidade de madeira, do tempo de queima e do momento exato em que as cinzas são recolhidas. Mesmo com o movimento intenso e a presença de curiosos, o ambiente permanece marcado por um forte senso de respeito, silêncio e reverência, já que cada pira representa, para as famílias, a esperança de que o falecido alcance o moksha e seja libertado do ciclo de renascimentos.
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