Crusoé: Ucrânia lamenta “narrativas russas” repetidas pelo governo Lula
À Crusoé, encarregado de negócios ucraniano criticou postura do Brasil e diz que Moscou usa negociações como propaganda
A Ucrânia optou por deixar vaga a cadeira de embaixador no Brasil desde que Andri Melynk foi transferido para uma função na ONU.
O gesto do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, foi interpretado como um sinal de insatisfação de Kyiv com a posição do governo brasileiro em relação à guerra.
Nesta semana, Lula sugeriu que a Ucrânia tivesse “coragem” para entregar os territórios invadidos pela Rússia.
A última conversa entre o petista e Zelensky ocorreu em outubro do ano passado, durante a Assembleia-Geral da ONU.
Crusoé conversou com Oleg Vlasenko (foto), encarregado de negócios da Ucrânia no Brasil, que lamentou a postura do governo brasileiro de repetir certas “narrativas russas” sobre o conflito.
Na entrevista, o diplomata ucraniano analisou o comportamento da Rússia nas negociações, o possível impacto da guerra no Irã no fornecimento de drones a Moscou e como as eleições brasileiras de outubro podem influenciar as relações entre os dois países.
Como o governo ucraniano avalia o impacto potencial da guerra no Irã no fornecimento de drones à Rússia, considerando que Moscou já produz em massa versões próprias?
É improvável que conflito no Irã tenha qualquer impacto no número de drones que a Rússia possui. O Irã cometeu um crime ao transferir os primeiros drones Shahed e tecnologias de lançamento de misseis para a Rússia em 2022.
O Irã alegou ter vendido os drones antes do início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas isso é uma mentira descarada. Aliás, mentir é um componente da política externa iraniana, e as normas que a liderança iraniana seguem permitem que eles mintam para preservar o regime. Os líderes iranianos, incluindo Khamenei, escolheram seu lado nesta guerra e são responsáveis pela morte de milhares de ucranianos pelo uso de drones.
A Rússia já possui sua própria produção de drones e não depende do Irã. A chamada fábrica da morte (Alabuga Start), que produz drones, é infame. Denunciamos ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil que o Cônsul Honorário da Rússia em Curitiba, Acef Antonio Said, havia promovido a contratação de mulheres brasileiras de 18 a 22 anos nessa fábrica em reuniões com autoridades locais. Não houve reação.
Qual a expectativa do governo ucraniano para avanços concretos? Houve algum progresso nas conversas com a Rússia?
A Rússia não está interessada na eficácia das negociações, mas sim em prolongá-las para continuar a guerra e tomar novos territórios. Já existem informações de que as tropas russas estão preparando uma nova ofensiva na região de Donetsk para a primavera. Ou seja, eles não têm interesse na eficácia das negociações.
A delegação russa participa das negociações para demonstrar aos EUA sua disposição para negociar, mas não estão dispostos a fazer concessões. Como antes, há um ultimato para a Ucrânia entregar, sem luta, 7 a 8 mil quilômetros quadrados do território da região de Donetsk, com 200 mil habitantes, controlados pelo exército ucraniano.
E o exército russo está se preparando antecipadamente para destruir cidades ucranianas – neste inverno, eles destruíram completamente as cidades de Pokrovsk, Myrnograd e quase completamente Kostyantynivka. Agora, planejam destruir outras cidades. Não há sinais de que a Rússia esteja disposta a concordar com um cessar-fogo, embora a Ucrânia tenha expressado sua disposição para um cessar-fogo em março de 2025.
Como Kyiv enxerga o compromisso russo nas negociações, especialmente com diante dos ataques intensos de drones paralelamente às conversas?
Não acreditamos que o regime mafioso de Putin esteja realmente comprometido com qualquer acordo de paz que não legitime o supremacismo político da Federação russa, que pretenderia mandar na Ucrânia, levando-nos de volta ao século XIX e ao chamado “Concerto das Nações”, citado por Fernando Haddad — ou seja, um compromisso de zonas de controle entre Estados imperialistas.
A única razão para os russos entrarem em negociações é a propaganda midiática, que poderia reduzir a imagem negativa e militarista de Moscou que hoje predomina no mundo. Há também um motivo mais…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)