Os artistas iranianos que desafiaram o regime dos aiatolás
Diretores como Jafar Panahi e Mohammad Rasoulof enfrentaram prisão, exílio e censura ao retratar a violência e a corrupção no Irã
A morte do líder supremo Ali Khamenei, por bombardeios de Israel e dos Estados Unidos, desencadeou reações públicas entre artistas iranianos exilados que, nas últimas décadas, fizeram do cinema e das artes plásticas como espaços de crítica ao regime dos aiatolás.
Perseguição e resistência
É o caso de Mohammad Rasoulof, diretor de A Semente do Fruto Sagrado, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2025, publicou uma imagem de Khamenei nas redes sociais após a morte do aiatolá. Exilado na Alemanha, descreveu o líder como “a figura mais odiada na história contemporânea do Irã”, e afirmou que o direito do povo iraniano de decidir seu destino “não pode mais ser suprimido”.
Jafar Panahi, cujo longa Foi Apenas um Acidente concorreu ao Oscar em 2025, adotou postura mais ambígua diante da morte de Khamenei: “Como muitas outras pessoas que sofreram neste período, escutar esta notícia me deixou tanto feliz quanto triste”, declarou à emissora americana NBC. Panahi lamentou que o aiatolá não tivesse sido preso e julgado por iranianos, dentro do próprio país.
O filme de Panahi, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025, acompanha vítimas de tortura que capturam um homem identificado como integrante das forças de segurança. A obra foi rodada clandestinamente, em locais secretos, com equipe reduzida e em menos de um mês.
As atrizes apareceram sem o véu islâmico – prática proibida no Irã. Como resposta, o regime condenou Panahi a mais um ano de prisão por “propaganda contra o regime”. O diretor estava fora do país e afirma planejar retornar quando as condições permitirem.
Cinema como arena política
O cinema iraniano ocupa posição singular na história política do país. Desde a revolução de 1979, o governo exerceu controle sobre a produção audiovisual: instituiu censura, definiu regras e, ao mesmo tempo, financiou e treinou realizadores alinhados à sua mensagem. Os filmes passaram a orbitar entre o aparato estatal e a tentativa de escapar dele.
Um marco desse período foi o chamado “cinema de sagrada defesa”, produzido nos anos 1980 durante a guerra entre o Irã e o Iraque, produção diretamente vinculada à narrativa oficial. Ainda assim, mesmo o cinema vinculado ao regime resistiu a generalizações, já que as posições tanto do governo quanto da oposição se alteraram ao longo do tempo.
Blake Atwood, professor da Universidade Americana de Beirute e autor do livro Reform Cinema in Iran, observa que “os filmes aclamados no exterior são apenas uma pequena porção dos que são produzidos todo ano”.
Há melodramas, comédias e filmes de ação sem relação com a crítica política, ao lado de obras de arte como as do consagrado Abbas Kiarostami, autor de Gosto de Cereja (1997).
Para Atwood, os prêmios internacionais transformaram o cinema dissidente em “um motivo de orgulho nacional para muitos iranianos”, ampliando sua presença no debate público além das fronteiras do país.
Nas artes visuais, Shirin Neshat, radicada em Nova York, construiu obra reconhecida nas principais feiras internacionais com foco nos direitos humanos e na crítica ao regime. Nos últimos anos, assinou cartas abertas em apoio aos protestos nas ruas do Irã e pediu o fim do governo dos aiatolás.
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