Ativista com Síndrome de Tourette grita insultos raciais no Bafta
John Davidson proferiu palavrões involuntários durante cerimônia de cinema; emissora optou por não cortar os insultos da gravação
Um episódio ocorrido durante o Bafta Film Awards 2026 gerou debate internacional sobre os limites entre acessibilidade, responsabilidade editorial e proteção a grupos vulneráveis.
John Davidson, ativista britânico com Síndrome de Tourette que inspirou o longa-metragem I Swear, estava na plateia da premiação, quando seus tiques vocais involuntários fizeram com que ele gritasse insultos racistas no momento em que os atores Michael B. Jordan e Delroy Lindo, do filme Pecadores, subiam ao palco.
O incidente ganhou repercussão não apenas pelo conteúdo do que foi dito, mas pela decisão da BBC, emissora que transmite o evento, de manter os trechos na edição final da cerimônia, exibida com um atraso de duas horas.
O que aconteceu na noite da cerimônia
Antes do início das gravações, o público presente no auditório foi informado de que Davidson – interpretado por Robert Aramayo, vencedor do prêmio de melhor ator naquela noite – estaria na plateia e que seus tiques são involuntários. O aviso foi seguido por uma salva de palmas, segundo o próprio ativista relatou.
Ainda assim, ao longo da cerimônia, Davidson pode ser ouvido gritando diversas vezes. O momento de maior impacto ocorreu quando Jordan e Lindo estavam no palco, e uma palavra considerada um dos insultos raciais mais graves da língua inglesa foi proferida em voz alta.
O apresentador Alan Cumming tentou contextualizar o ocorrido durante o evento. “A Síndrome de Tourette é uma deficiência, e os tiques que vocês ouviram esta noite são involuntários, o que significa que a pessoa que tem a síndrome de Tourette não tem controle sobre sua linguagem. Pedimos desculpas se vocês se sentiram ofendidos esta noite”, disse ele ao microfone.
A designer de produção de Pecadores, Hannah Beachler, usou as redes sociais para relatar que também foi alvo de insultos de Davidson durante o evento. Ela criticou a formulação do pedido de desculpas feito por Cumming. “Eu sei que devemos lidar com isso com elegância e seguir em frente. Mas o que tornou a situação pior foi o pedido de desculpas descartável de ‘se você se ofendeu’ ao final do show”.
A falha apontada na edição da transmissão
A BBC emitiu nota após o evento. “Alguns telespectadores podem ter ouvido linguagem forte e ofensiva durante o Bafta Film Awards 2026. Isso decorreu de tiques verbais involuntários associados à Síndrome de Tourette e não foi intencional. Pedimos desculpas por qualquer ofensa causada pela linguagem ouvida”, afirmou um porta-voz da emissora.
O ponto que concentrou as críticas de colunistas internacionais foi outro: a transmissão era gravada, não ao vivo, e o mesmo intervalo de edição foi usado para suprimir ao menos dois outros momentos – um grito de “Palestina Livre!” proferido pelo diretor Akinola Davies Jr., e uma fala do próprio Cumming comparando os temas do filme Zootropolis 2 à política americana contemporânea. Os insultos raciais, no entanto, foram mantidos.
Clayton Davis, da revista Variety, apontou que “a falha primária aqui cabe ao Bafta e à BBC. Esta foi uma transmissão com atraso. Eles ainda assim permitiram que o insulto fosse ao ar, sem filtros, e depois deixaram o momento circular como um clipe – desprovido de contexto e preparado para gerar indignação”.
A posição de Davidson
Na tarde da segunda-feira seguinte ao evento, Davidson divulgou um comunicado. “Passei minha vida tentando apoiar e capacitar a comunidade com Tourette e a ensinar empatia, gentileza e compreensão aos outros, e continuarei a fazê-lo. Escolhi deixar o auditório logo no início da cerimônia, pois estava ciente do transtorno que meus tiques estavam causando”, afirmou.
O ativista agradeceu ao Bafta pelo convite e pelo aviso feito ao público antes das gravações, e registrou que o filme I Swear é, em sua avaliação, o trabalho audiovisual que melhor explica “as origens, a condição, os traços e as manifestações da Síndrome de Tourette”.
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