Chefe do CV no Amazonas dizia ter aliados em todos os órgãos do Estado
Operação da Polícia Civil prende 13 pessoas ligadas ao Comando Vermelho, entre elas servidores dos três Poderes; grupo movimentou R$ 70 mi
A Polícia Civil do Amazonas prendeu 13 investigados na sexta-feira, 20, em uma operação que desarticulou um núcleo do Comando Vermelho com conexões nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Estado.
Segundo as investigações, a organização criminosa movimentou mais de R$ 70 milhões entre 2020 e 2024, valendo-se de servidores públicos e empresas de fachada para lavar o dinheiro obtido com o tráfico de drogas.
Oito dos detidos foram presos no Amazonas. Os demais foram capturados em São Paulo, Ceará, Pará e Minas Gerais.
A operação também resultou no cumprimento de 24 mandados de busca e apreensão em sete estados – incluindo Maranhão e Piauí –, além do bloqueio judicial de contas bancárias e do sequestro de bens dos suspeitos e das empresas vinculadas ao grupo.
Servidores públicos como engrenagem do tráfico
Entre os presos estão um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), ex-assessores de três vereadores e Anabela Cardoso Freitas, integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito David Almeida (União Brasil).
A Prefeitura declarou não ser alvo da operação e afirmou que cada servidor investigado “responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei”.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram transações de alto valor feitas por servidores vinculados a diferentes órgãos estaduais. De acordo com os investigadores, esses funcionários ofereciam suporte logístico, acesso a informações sigilosas e proteção institucional à organização.
O delegado Marcelo Martins afirmou que a abrangência da infiltração ficou evidente após a análise de um celular apreendido. Nas mensagens encontradas, o líder do grupo dizia “ter pessoas em todos os órgãos” e declarava não temer a prisão, pois “pagava todos”. Para os investigadores, esse esquema de proteção era o que sustentava as atividades do grupo ao longo do tempo.
Igrejas, fachadas e rota amazônica
A organização adquiria entorpecentes em Tabatinga, município do interior do Amazonas na fronteira com a Colômbia e o Peru, e distribuía a droga para outros estados. O dinheiro era lavado por empresas registradas no Amazonas e no Pará antes de ser repassado.
Segundo o delegado Martins, as empresas de fachada não tinham atividade comercial real. “Suas únicas transações financeiras eram com traficantes e servidores públicos”, disse. Nenhuma dessas empresas comprava insumos ou mantinha relações com outras do mesmo setor.
Para escapar da vigilância policial, o líder do grupo mantinha presença em uma igreja evangélica no bairro Zumbi dos Palmares, na zona leste de Manaus. Outras igrejas também eram utilizadas pela organização com a mesma finalidade.
O TJ-AM informou que abriu procedimento administrativo contra o servidor preso e declarou que “não compactua com quaisquer condutas incompatíveis com os deveres funcionais”. A Polícia Militar do Amazonas, que também teve um agente detido na operação, disse que o caso será encaminhado à Diretoria de Justiça e Disciplina e que “não compactua com desvios de conduta praticados por nenhum agente da instituição”.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)