França desaconselha psicanálise no tratamento de autismo
Autoridade de saúde aponta falta de comprovação científica e recomenda métodos comportamentais; debate opõe famílias a profissionais da área
A Autoridade Nacional de Saúde da França (HAS) publicou novas diretrizes que desaconselham o uso da psicanálise no tratamento de pessoas com transtorno do espectro autista. A decisão representa a primeira tomada de posição explícita do órgão sobre o tema em 14 anos.
Segundo o documento, a abordagem psicanalítica apresenta “um nível insuficiente de evidências” para ser indicada no tratamento do autismo. A HAS é uma instituição independente cujas orientações servem de referência para as políticas públicas de saúde no país.
O autismo afeta entre 1% e 2% da população e abarca condições variadas, que compartilham características como dificuldades na compreensão das relações sociais e tendência a comportamentos obsessivos. O último documento relevante sobre o tema havia sido divulgado pelo órgão em 2012.
Disputa entre famílias e profissionais
A questão divide dois grupos. De um lado, as associações de famílias defendem a exclusão total da psicanálise. Alegam que a abordagem é inadequada para o tratamento do espectro autista e não apresenta benefícios comprovados. Criticam ainda a presença marcante da psicanálise na formação de psicólogos franceses.
De outro, entidades que representam psicólogos e psiquiatras resistem à condenação completa do método. Argumentam que as psicoterapias apresentam dificuldades de avaliação científica e defendem que os profissionais mantenham liberdade para escolher entre diferentes abordagens.
Embora tenha perdido espaço entre psiquiatras, a psicanálise continua presente em diversos cursos de psicologia. Abordagens psicanalíticas permanecem comuns em instituições que atendem crianças, principalmente em centros de saúde mental infantil e adolescente.
Métodos comportamentais como alternativa
A HAS defende abordagens comportamentais e de desenvolvimento como alternativas. O documento recomenda que essas intervenções sejam aplicadas o mais cedo possível, assim que houver suspeita de transtorno do espectro autista. A personalização do tratamento também aparece como prioridade.
“Não existe uma resposta única e universal, nenhum método que seja o mesmo para todos os diagnosticados com autismo”, afirmou a psiquiatra Amaria Baghdadli, copresidente do grupo de trabalho da autoridade, em entrevista coletiva.
Danièle Langlois, presidente da Autisme France, organização que representa milhares de famílias, avaliou que a HAS deu “um passo à frente, que esclarece as coisas”. Ela disse que as famílias “lidam principalmente com profissionais que têm formação em psicanálise”, tanto entre profissionais de saúde quanto assistentes sociais.
Não deve – mas não pode?
A discussão agora se volta para a possibilidade de transformar as recomendações em lei. O presidente da HAS, Lionel Collet, tem sugerido que as diretrizes se tornem obrigatórias, proposta que irrita diversas organizações de psicólogos.
A Federação Francesa de Psiquiatria (FFP) e o Sindicato Nacional dos Psicólogos (SNP) rejeitam a ideia de uma “psicologia e psiquiatria controladas pelo Estado”. “Seria um perigo real, negando o reconhecimento da complexidade humana, que exige múltiplas abordagens”, afirmaram as entidades em 2025.
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